Publicado em Contos

Me inscrevi num concurso de contos de terror.

T�, eu sei que eu n�o escrevo contos de terror, por sinal nunca escrevi nada de terror propriamente dito. Mas hj acordei levemente inspirado, e quem quiser ver o resultado disso, t� aqui:

Dores internas

(F�bio Ricardo de Oliveira)

Acordou cedo, como normalmente fazia. Costumava levantar-se junto com o sol, por�m dessa vez levantou-se e o sol ainda adormecia. Acordou cedo por causa de uma terr�vel dor de barriga que o atacara durante a noite. Sua noite foi marcada por pesadelos, um sono turbulento, onde n�o conseguiu descansar.

Levantou-se j� com as m�os pressionadas contra a barriga e correu para o banheiro. Sentou-se na privada, cal�as baixas, mas nada aconteceu. A dor parecia ser interna, uma dor forte, aguda, n�o uma simples dor de barriga. Ajoelhou-se de frente ao vaso e tentou vomitar. N�o conseguiu. Enfiou o dedo na garganta, for�ando o v�mito, e ent�o uma dor aguda tomou conta de seu corpo. Caiu de lado no ch�o do banheiro, os olhos cheios de l�grimas e um gosto amargo de sangue nos l�bios.

Conseguiu se levantar com dificuldade, escovou os dentes e desistiu da id�ia de tentar comer algo antes de ir trabalhar. Seria imposs�vel. Vestiu-se e entrou no carro. Ao sentar no carro a dor aumentou. Sentiu como se houvesse algo dentre de si. Respirou fundo, ligou o carro e partiu.

A caminho do centro da cidade, onde trabalhava, teve mais um forte ataque de dor. Encostou o carro no acostamento, abriu a porta e vomitou. Seu v�mito era composto de sangue e restos de carne. A dor era insuport�vel, n�o podia se controlar.

Sentou-se novamente e deu um forte soco contra o pr�prio est�mago, xingando monstros imagin�rios. Sentiu ent�o, uma dor insuport�vel, como se min�sculos dentes se afundassem contra a parede interna de seu est�mago. Tossiu pequenas gotas de sangue contra o p�ra-brisa do carro e caiu de lado, deitado no asfalto, vomitando sangue e pequenos peda�os de seus pr�prios �rg�os internos.

Sentia como se dentro de si houvesse um pequeno monstro que o devorava cent�metro por cent�metro, e dava gargalhadas a cada jorro de sangue que sa�a de sua boca.

Juntou todas as suas for�as para conseguir entrar no carro e partir. Voltou para sua casa, destinado a dar um fim � pr�pria dor. Estacionou o carro na garagem que ficava anexo � sua casa e caminhou at� um quarto nos fundos, onde mantinha uma esp�cie de oficina, com ferramentas e todo tipo de equipamento para pequenos consertos em geral.

Impensadamente apanhou um funil e um pote contendo �leo de motor. Firmou o funil contra a boca e despejou o l�quido consistente de encontro � sua garganta. Logo no primeiro gole, engasgou-se e caiu fraco, chorando no ch�o da oficina.

Ouvia baixinho um som estranho, que traduziu como a risada sarc�stica do pequeno ser que agora adotara seu est�mago como lar.

– Maldito! Vou mat�-lo! Voc� me paga! � gritou insano.

A dor voltara, ainda com mais for�a, como que para provar seu poder contra ele. Alucinado pela dor, reuniu suas �ltimas for�as e colocou-se de p�. Cambaleou at� a parede forrada com ferramentas e pegou uma pequena foice no formato de gancho. Foi at� o afiador el�trico na parede oposta e o ligou. O ru�do se misturava com a dor e ele n�o conseguia mais raciocinar direito. Afiou a foice at� que seu fio fosse capaz de cortar a ponta de seu dedo apenas com um toque leve. Perdeu a no��o de quanto tempo isso levou. Parava apenas de tempos em tempos para cair de joelhos e vomitar seu pr�prio sangue, misturado com a carne de seus �rg�os, devido � dor insuport�vel que sentia e que vinha cada vez mais forte.

Quando o fio ficou pronto, ele esfregou a l�mina contra o pr�prio dedo, deixando um grosso rastro de sangue para tr�s. O dor em seu est�mago parou brevemente, como que por m�gica.

Ele deu uma risada alta, sonora, que n�o poderia ser dada por um homem s�o. Ergueu as duas m�os ao c�u, segurando a pequena foice com for�a. Nesse momento, sentiu uma dor maior do que todas que havia sentido at� agora. Era como se um peda�o grande de seu est�mago tivesse sido arrancado de uma s� vez.

Abaixou-se e gritou maldi��es. Reuniu novamente suas for�as e levantou-se. Ergueu os bra�os novamente, e golpeou a foice contra seu pr�prio abd�men com toda sua for�a. Gritou de dor e sentiu o forte gosto de sangue novamente em sua boca. Mas as dores continuavam, nada havia mudado dentro de si. Puxou a foice pelo corpo, na dire��o do peito, ainda com a l�mina fria cravada em seu corpo.

A l�mina chegou at� o centro de suas costelas e ele caiu de joelhos. Sua vis�o emba�ada n�o deixava que enxergasse nada � sua frente. Tentou continuar a cortar-se mas a dor era insuport�vel. Caiu de lado e sentiu seu est�mago ser revirado, como se algo jogasse suas v�sceras para fora de seu corpo, abrindo espa�o para poder sair.

Tonto, n�o p�de identificar o dono do surdo ru�do que vinha de seu pr�prio est�mago. Sua cabe�a caiu para tr�s e assim ele morreu, sem ao menos ver o que havia causado a sua morte.

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Autor:

Fábio Ricardo é jornalista blumenauense apaixonado pelo mundo digital, por inovação e por histórias pra contar. Acha que a vida é melhor cercada de gatos, em cima de uma Harley, com uma caneta na mão e uma cerveja em cima da mesa.

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