Publicado em Contos

As Rosas Não Falam

Fábio Ricardo e Natália Maeda
Escrito em 19/12/2006

Sabe lá eu de onde tirei aquelas idéias tolas. O café, a chuva, tudo se misturando como uma história só. Deve ter sido a ressaca. Todas as memórias coloridas de noite passada continuam lutando entre si. Assim fica difícil pensar em algo concreto.

Lá fora a lua brilha enorme, refletindo à atmosfera e pintando de azul turquesa um céu estranhamente desestrelado. Enquanto aqui dentro sento eu e meus papéis, tentando criar a próxima fala de Rosaura. Rosaura que tem a pele negra como a noite lá fora, mas que não tem rosto. Ainda não tem. “Sabe lá eu de onde tirei aquelas idéias tolas”. Será que Rosaura falaria isso? É, acho que sim. Rosaura é simples, mas é inteligente. Por isso se questiona tanto. Questiona-se tanto, mas tanto, que acaba inventando suas próprias respostas, ditando uma enciclopédia para perguntas existenciais e questões atmosféricas. Ah, Rosaura… Sem querer aquela rosa na janela lhe falou bom dia, e não é que Rosaura criou a teoria da solidão das flores?

Solidão das flores… solidão das flores…. droga! onde é que está a página que vinha depois da solidão das flores? Tento me lembrar. Luísa tinha falado pra Rosaura sobre o buraco no teto. Aquela parte da divagação. Página quinze, segunda versão do capítulo dois. “Então achei que as flores se sentissem sozinhas”. Ah, sim. Aqui está. A teoria da solidão das flores.

Não sei o que escrever. Não bastam teorias e idéias usadas. Rosaura se lembra novamente das flores melancólicas – mas e aí? De teorias as livrarias estão cheias. É um tal de monges que mexem nos queijos dos executivos que eu fico perdido. Pérolas de auto-ajuda destiladas ao sabor dos ventos, prontas para supervalorizar. Rosaura não pode ser mais uma dessas. Rosaura tem que ser única, tem que ser sábia sem saber. Como queria eu sê-la, sem necessitar traduzir em palavras de normas – ou normas de palavras – o anacronismo de uma sabedoria forjada (como essa). Eu quero ser simples como a rosa que falou bom dia, só isso. Rosaura tem que ser sábia, eu tenho que ser simples. Mas como fazer isso se o contrário é tão cortante?

Respiro fundo e me recosto na cadeira. Começou a chover de novo.

O verão é quente e as chuvas parecem ter hora marcada. Iniciam às 17h, fazem uma breve pausa às 17h40 e voltam a molhar em menos de meia hora. Todo dia assim. Todo dia o mesmo cinema na janela em frente à minha mesa. De certa forma, é até bom. Há meses que a televisão não pega. A chuva passa a ser uma companheira fiel. Vem a nuvem, o céu escurece, caem gotas frias. As rosas no parapeito tomam banho, Rosaura passa correndo pelo quintal, rindo.

As gotas da chuva e do absinto se misturam pela milionésima vez. Passo a tarde olhando Rosaura tomar banho de chuva no quintal. A tez negra e o vestido branco, molhado, girando no quintal.

Mas, de repente, ela olha para mim. Olha em meus olhos. Fico atordoado, isso nunca aconteceu antes. A minha criação me contempla e me convida para entrar no seu mundo. Fico paralisado. Olho para a taça vítrea repleta do líquido verde. Está lá. Todo o absinto continua na taça, ainda não dei sequer um gole. Bêbado não estou, terei ficado louco?

Rosaura ri de minha incredulidade. Seu riso é leve, solto. Seus cabelos molhados balançam e dançam. Ela vem até minha janela e se debruça sobre o parapeito, sorrindo como se quisesse dizer “fique calmo!”. Eu aguardo, aguardo e nada. Nem uma palavra.

Rosaura estende lentamente a mão molhada, até encostar em meu rosto frio de nervosismo. Ela cheira a jasmim. Fecho os olhos, querendo me enganar de que isso tudo é possivelmente normal.

Aproximo-me cada vez mais, sentindo o cheiro de jasmim, que juro sentir vindos de seus lábios. O rosto de Rosaura fica a dois palmos do meu. Sim, agora consigo ver como ele é. No começo, só havia os cabelos cacheados e a pele negra, mas agora vejo com uma clareza profunda os olhos verdes e vívidos, os lábios grossos, os dentes brancos sorrindo para mim… Aproximo-me cada vez mais. Rosaura também se aproxima, olhos fechados e lábios unidos, assim como os meus.

Ela me beija. Mas não a sinto.

Abro os olhos, assustado. Meu lábios estão colados na janela fechada, minha respiração embaça o vidro encostado no meu rosto. Lá fora a noite continua azul, mas não chove.

Encabulado, vejo a garrafa vazia, caída no tapete.

Sabe lá eu de onde tirei aquelas idéias tolas.

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Autor:

Fábio Ricardo é jornalista blumenauense apaixonado pelo mundo digital, por inovação e por histórias pra contar. Acha que a vida é melhor cercada de gatos, em cima de uma Harley, com uma caneta na mão e uma cerveja em cima da mesa.

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