Publicado em Contos

O menino que não podia envelhecer

Foi na sétima série que Oscar percebeu que havia algo errado com seu corpo. Que ele sempre foi o menorzinho da sala, todos sabiam. O mais baixinho, mais magrinho, com cara de criança, mesmo já tendo 14 anos. Um dia ele reparou, sem um motivo em específico, que não se lembrava da última vez que havia cortado o cabelo. Há anos ele não ia ao cabeleireiro. Tanto o médico quanto o dentista nunca acharam nenhuma doença, nenhuma cárie. E eles eram os melhores especialistas que o vasto dinheiro de seu pai podia pagar. Ele comia bem, mas não conseguia engordar. Jogava futebol com os amigos, andava de bicicleta, mas não ficou nem um pouco mais musculoso, ao contrário do restante de sua turma.

Curioso, resolveu pegar seu álbum de fotos. Seu medo se mostrou real: fazia pelo menos dois anos que ele não havia envelhecido nada. Seu cabelo continuava exatamente do mesmo tamanho desde a quinta série, e não era a toa que ele era o menor da turma. Ele não havia crescido desde então!

Oscar pensou em muitas possibilidades, mas não conseguiu achar nenhuma saída. Mais cedo ou mais tarde seus pais e amigos iriam reparar. O ano estava quase acabando e ele ia para a oitava série, com cara e corpo de um menino da quinta. Alguém iria notar.

A única saída que encontrou foi fugir de casa. Numa manhã de sábado fugiu com uma mochila nas costas para outra cidade. Lá, entrou em um hotel dizendo que seu pai só conseguiria chegar a noite, e então faria o cadastro. A atendente acreditou e lhe deu a chave do quarto. De lá, ele entrou na internet e alugou um apartamento no Centro, utilizando o nome e o número do cartão de crédito de seu pai. Ninguém suspeitaria.

Meses se passaram e Oscar se matriculou no colégio, sempre dizendo que seu pai, um homem muito ocupado, não podia se fazer presente nas reuniões. Oscar usava a senha do banco de seu pai para fazer sempre pequenos saques, de forma que o pai não reparasse que o dinheiro estava sumindo. Voltou para a quinta série, pois não podia apresentar os documentos dizendo que já estava na sétima, com medo que descobrissem quem ele era, antes que descobrissem que ele não podia envelhecer. Passou a chamar-se Dorian e era o melhor aluno de sua sala.

Na sétima vez que cursava a quinta série, já no sétimo colégio diferente das quatro cidades que já havia morado desde que fugiu de casa, Oscar entediou-se e passou a viver uma vida reclusa dentro de casa. Esqueceu de sua família, seu colegas e das risadas. Não via mais graça em vídeo-games, histórias de terror ou em jogar mata-soldado. Não desenhava mais, não mascava chicletes e não sorria.

Oscar, enfim, envelheceu.

*postado originalmente no Duelo de Escritores.

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Autor:

Fábio Ricardo é jornalista blumenauense apaixonado pelo mundo digital, por inovação e por histórias pra contar. Acha que a vida é melhor cercada de gatos, em cima de uma Harley, com uma caneta na mão e uma cerveja em cima da mesa.

4 comentários em “O menino que não podia envelhecer

  1. Oscar – quem sabe – queria ter sido como Dorian Gray. Jamais envelhecer e guardar para si só, quem sabe também em um quadro, sua eterna juventude.

    Bom texto.

    Abraços,
    Tiago.

  2. Caraaaalho, animal…
    Na real, às vezes o discurso jovem já não condiz com os hábitos que mudaram há tanto tempo, sem ninguém perceber.

    Foda.
    Tá de parabéns, blog show de bola.

  3. História bacana.

    No início, pensei que Oscar teria algum tipo de poder (como o Wolverine), mas pelo que entendi, era a felicidade de viver que o deixava sempre jovem. Quando ele perdera toda a alegria da vida, envelhecera.

    Parabéns.

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