Publicado em Contos, Fodzillas, Música

Punks Falidos

Ter uma banda é uma coisa engraçada. Primeiro, quando ainda arranhamos acordes mal feitos no violão, em churrascos na casa de amigos, conquistamos todas as menininhas da festa. Violeiro que é violeiro sempre tem uma pasta de “músicas-pra-pegar-mulher”. Normalmente ela é aberta já mais para a metade da festa, onde o clima já ficou mais intimista e meia dúzia de olhares já foram trocados. Sempre funciona, é batata.

Depois, vem a vontade de montar uma banda de rock. Roupas pretas, camisetas de bandas, cabelos deixados crescer. A transformação que todo mundo já conhece. Muitos ensaios se dão até a banda subir no palco, e mesmo sendo invariavelmente ruim, logo surgem as fãs, pedindo palhetas, baquetas, camisetas e beijos. Tudo muito normal, tudo muito bom, tudo muito ego.

Daí o cara amadurece, a banda também. Ele já tem a sua própria companhia para os shows, mas ela não gosta muito daquele estilo de música. A namorada vira noiva. A banda grava o terceiro CD, os investimentos em instrumentos e ensaios crescem e começam a ser a causa de brigas. As costas já não são tão fortes, aquele problema no joelho do baterista passa a ser crônico.

A banda já não toca mais em shows de punk e baladas lotadas, apenas nas festas de aniversário de 30, 31, 32 anos dos integrantes, no casamento daquele guitarrista que era o terror das menininhas. O baterista não pode mais ensaiar nas segundas-feiras, pois é o dia que a esposa faz yoga, e ele tem que ficar em casa para cuidar do bebê, que ainda nem completou um ano. A gente corta o cabelo, deixa o baixo encostado na parede e toca cada vez menos o violão de cordas enferrujadas.

Os encontros se tornam cada vez mais raros, porque até aquela cervejinha com bate-papo no final de semana ficou mais difícil, graças à Lei Seca. A banda nunca admite que acabou, só chega um dia onde os ensaios não acontecem mais. As esposas/noivas/namoradas comemoram, afinal, finalmente seu homem amadureceu.

Os ex-roqueiros se acostumam com os ternos e o gel nos cabelos. O All Star agora não serve mais para fora de casa, no máximo para o churrasco no domingo. Esquecem as cifras, os riffs, as batidas. O violão não desencosta mais da parede.

Quando se dá conta, só vai aos shows de rock quando vem alguma banda de fora, o alternativo fica esquecido. O underground já é distante, o punk faliu. E o Kaly, da Stuart, rasga o destino nos acordes de pouca esperança: “Jaquetas de couro, não usa mais. Broche dos Ramones, não usa mais. Cabelos espetados, jamais, (agora só) batidas de maracujá. Deixou as correntes e os mitos. É só mais um punk falido”.


(crônica para minha coluna deste mês no zine catarinense Ant.Zine. Em breve com link aqui para download da versão em pdf)

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Autor:

Fábio Ricardo é jornalista blumenauense apaixonado pelo mundo digital, por inovação e por histórias pra contar. Acha que a vida é melhor cercada de gatos, em cima de uma Harley, com uma caneta na mão e uma cerveja em cima da mesa.

4 comentários em “Punks Falidos

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