Publicado em Contos

Solidão

Nunca chegou a dizer o quanto a amava. Por sinal, sequer chegou a dizer que a amava. Achava que de certa forma isso a assustaria, faria com que se afastasse ainda mais. Mas a solidão aos poucos foi o consumindo.

Ele achava que era uma coisa de momento, que logo a esqeceria, assim como esqueceu tantas outras antes dela. Mas ao invés de aos poucos ir parando de pensar nela, o efeito foi justamente o contrário. Após duas semanas não conseguia pensar em nada além de seu cheiro inconfundível e do toque suave de sua pele. Não sentia mais fome, vontade de sair com os amigos ou com outras garotas. Nenhuma tinha um sorriso tão bonito, um papo tão interessante.

Passava as noites se revirando na cama, deitando lágrimas no travesseiro. Durante o dia, andava se arrastando, cabeça baixa e já não sabia mais sorrir. Durante a noite afogava sua imagem em garrafas de todas as cores. Sonhava com ela noite e dia. Via seus olhos no outro lado da rua, seu sorriso em cada comercial de TV, sua voz nos fones de ouvido, seu cheiro em cada esquina, seu calor dentro de seu moletom velho.

Deixou a barba por fazer, não penteava mais o cabelo e pegava a primeira roupa que via dentro do armário. Passou a dizer que estava doente, tirou férias e isolou-se dentro de si mesmo. Suas férias do mundo exterior durariam o tempo que fosse necessário. Ou até que ela voltasse para ele, ou até ele esquecê-la. Mal sabia ele que nenhuma das duas opções jamais iriam acontecer.

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Autor:

Fábio Ricardo é jornalista blumenauense apaixonado pelo mundo digital, por inovação e por histórias pra contar. Acha que a vida é melhor cercada de gatos, em cima de uma Harley, com uma caneta na mão e uma cerveja em cima da mesa.

10 comentários em “Solidão

  1. É praticamente um ciclo do qual não podemos fugir. Conhecemos, nos apaixonamos, amamos, alguém nos deixa ou nós que deixamos esse alguém. Aí sofremos, choramos, lamentamos, mesmo sabendo que um dia passa, porque um dia realmente passa. Mas deve fazer parte desse cicloa achar que dessa vez é pior, que dessa vez não passar e que vamos, praticamente, morrer por causa disso. O que na verdade não acontece, salvo raras excecções.

    Ps: Parabéns, Parabéns! Podemos negociar o livro de presente. Lembrando que o meu aniversário não está tão longe assim.

  2. “É praticamente um ciclo do qual não podemos fugir. Conhecemos, nos apaixonamos, amamos, alguém nos deixa ou nós que deixamos esse alguém. Aí sofremos, choramos, lamentamos, mesmo sabendo que um dia passa, porque um dia realmente passa. Mas deve fazer parte desse cicloa achar que dessa vez é pior, que dessa vez não passar e que vamos, praticamente, morrer por causa disso. O que na verdade não acontece, salvo raras excecções.”

    Não faz parte do texto, Aline. Mas bem que poderia fazer.

  3. Fugindo um pouco da linha editorial? Eu gosto de textos assim, em que o autor se coloca no papel. Esse “derrame”, ou sangramento – como chamava o Caio Fernando Abreu, é muito mais intenso do que no texto opinativo (que aparece tanto por aqui), porque lida com a subjetividade, com sentimentos e sensações que nem sempre são totamente revelados. Não se assumem no “Eu”, então viram contos e se transformam no “Ele e Ela”.

  4. Fora as raras exceções, todos os outros fins são prá lá de imprevissíveis.

    Obrigado pela sugestão. Até a “segunda chamada” é baseado na palavra TCC, que no meu caso é no ano que vem, que a escolha de tirar férias está em primeiro lugar.

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