Publicado em Contos

O Príncipe Encantado (ou não)

(por Fábio Ricardo – 30/10/08)

Ele tinha uma queda por menininhas, sempre teve. Nada de mulheres feitas, bem sucedidas e seguras de si. Sempre olhou para as mais novas, universitárias ou recém-saídas da faculdade. Aquele tipo meio deslumbrado, que ainda está à procura do príncipe encantado. De certa forma elas eram mais fáceis de satisfazer. Na cama, por não terem uma experiência tão grande assim, e se empolgarem com qualquer nova perversão sugerida. Fora dela, por se derreterem com qualquer buquê de flores, jantar no japonês ou palavra bonita sussurrada no ouvido.

Mas um dia ele a conheceu. Quase dez anos mais velha, empresária carioca, bem sucedida e numa vibe completamente diferente daquela pela qual ele já tinha percorrido. E o mais impressionante: ela falava de sexo. Não falava como todas falam, cheias de pudores, desvios de fala ou rubores faciais. Falava de um jeito todo seu, todo seguro de si, todo direto. Não inventava apelidos para seus sexos e não tinha vergonha alguma em dizer que preferia nesta ou naquela posição.

Ele, que sempre fora tão seguro de si, sentia-se uma criança diante dela. Sempre foi o comedor, o maioral. Pegava a menina em casa, da casa pra sinuca, da sinuca pro barzinho, do barzinho pro motel. Pagava sem perguntar o preço e a deixava na porta de casa, com um beijo de boa noite. Menininha nenhuma resistia. No dia seguinte era MSN, Orkut, mensagem de celular, aquela garantida básica pra não deixar escapar.

Daí chega ela. Tão segura, tão dona de seu próprio nariz. Escritora, cineasta, tudo aquilo que ele dizia ser, e que nunca tinha chegado sequer aos pés dela. Ele, que fingia ser o príncipe encantado, caiu do cavalo branco. Não tinha nenhuma arma pra usar contra ela. A conversa de sempre não funcionava, ela já tinha ouvido milhares de vezes. O jeitão de bom moço era piada, ela escolhia a dedo. O papo intelectual era vencido na primeira meia hora, ela era mais versada que qualquer das outras vítimas.

Mas mesmo assim ela jogou um charme. Ele deu o bote e ela manipulou ele direitinho. Ele investiu e ela administrou o resultado. Ele ofereceu carona, e ela – mesmo estando de carro – aceitou. Ele, para mostrar que estava no controle, carregou as algemas, a espuma pra banheira e a venda para os olhos. Ela tirou a roupa de forma magistral. Se não se garantisse, podia ter se assustado com aquela mulher na sua cama. Ela, que não tinha medo de berrar, de dizer com todas as palavras o que queria que ele fizesse. Ela, que pulava sobre ele, girava o corpo e arqueava as costas como nenhuma outra. Ela, que percebeu que ele queria mandar, queria o poder.

Soltou as rédeas e foi submissa. Gozou uma, duas vezes, gritou sem pudor. Depois deitou-se em seu peito, toda donzela, em busca de um afago. Com as mãos entre seus cabelos suados, ele cresceu novamente. Ela o dominava por completo, era muito mais do que ele em qualquer lugar. Mas ali ele ainda tinha seu cavalo branco e a armadura de prata do príncipe encantado. Homem qualquer no mundo consegue reparar no brilho mágico dos olhos de uma mulher bem comida.

Anúncios

Autor:

Fábio Ricardo é jornalista blumenauense apaixonado pelo mundo digital, por inovação e por histórias pra contar. Acha que a vida é melhor cercada de gatos, em cima de uma Harley, com uma caneta na mão e uma cerveja em cima da mesa.

15 comentários em “O Príncipe Encantado (ou não)

  1. Sensacional extremo! hehe
    Cara, mulher com poder é tudo. Epoder vem de saber o que quer. E poder maior ainda é ver uma mulher poderosa derretida por tua causa. Raciocínio da semana. Ficção ao estilo das indecorosas. Isso aê!

  2. Olha só o estilo levemente canalha voltando com tudo. Não deixa de ser romântico. E a frase da semana (“Homem qualquer no mundo consegue reparar no brilho mágico dos olhos de uma mulher bem comida”), não deixa de ser verdade.

  3. “Depois deitou-se em seu peito, toda donzela, em busca de um afago”…foda, nem todo homem consegue ver uma feminilidade por trás de uma mulher forte…

    “Homem qualquer no mundo consegue reparar no brilho mágico dos olhos de uma mulher bem comida.”…A-RRAAA-SOUUU

    Amei o texto, ainda mais que eu conheço a musa inspiradora e sou fanzoca dos textos dela!!! Parabens

  4. “Homem qualquer no mundo consegue reparar no brilho mágico dos olhos de uma mulher bem comida.” HAHAHA verdade.

    Eu acho que os dois eram ou queriam ser os dominadores da relação, e acabou que um se tornou dono do outro.

    Legal, gostei :D

  5. Que massa esse conto Fábio, Eu sempre desconfio que por trás de uma mulher que quer parecer segura demais,existe uma garotinha que quer mesmo acreditar em um Principe… E por trás de um homem inseguro um narciso.

  6. Vi uma indicação no blog da poliana e tive q dar uma espiada aqui…

    Mto bom esse seu texto, heim! Essa historia de mulher mais velha e garoto novo sempre dá um caldo!!! rsrs

    bjs e feliz 2009

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s