Publicado em Contos, Literatura

Das cartas que nunca mandei (2)

Ontem eu vi tuas fotos. Pensei que não ia ter problema algum, então eu olhei. Nada demais, umas fotos jogadas na internet, mostrando como o seu verão foi bom. Então eu olhei, uma por uma, como há tempo não fazia.
Não foi difícil rever teu rosto, logo nas primeiras fotos. Foi tranqüilo, gostoso até. Deu pra relembrar algumas coisas boas, como aquele dia no japonês com as mãos se tocando embaixo da mesa, aquele fim de semana na praia e até aquele dia que fui te levar um chocolate durante um domingo de trabalho chato.
Lembrei de como eu me sentia bem ao seu lado, de como você ficava bonita quando fazia caretas, feito a menininha que no fundo você é. Lembrei daquela tarde de sábado em que nós dois nos atrasamos, por ficar conversando e por muito, muito mais. Lembrei da primeira vez que você me chamou de namorado, assim, deixando escapar meio sem querer, e da vergonha que você sentiu.
Continuei vendo as fotos e me arrependi. Vi as suas fotos com ele. Eu, que nem sabia que você já estava namorando, enquanto eu nem sequer te esqueci.  Vi suas fotos aos beijos, aos abraços, aos sorrisos e aos colos. Vi você ao lado dele, naquele momento que eu verdadeiramente cheguei a acreditar que você estaria ao meu lado.
Eu podia ter dividido minha cama com você por muitos mais dias, meses ou anos. Eu podia ter te levado pra todos os shows que você ia reclamar, e podia ter ido com você para todas as baladas da moda e dançar até o amanhecer. Eu podia te ouvir dizendo que minha banda nunca daria certo, e mesmo assim te responder com um sorriso. Eu podia deitar na cama enquanto você se vestia, provando cada vestido do armário, para ver em qual ficava mais bonita.
E você ficaria linda em todos eles. Tão linda e perfumada que até o nariz se vestia para festa. Ah, o nariz. Nada era tão gostoso quanto aquele nariz junto do meu.
Mas agora você diz que vai ligar e não liga. Não responde e-mails ou conversas virtuais. Manda uma ou outra mensagem, de vez em quando, só pra dizer que não me esqueceu. E é nesses dias que eu consigo parar o mundo todo só prendendo a respiração. Consigo escutar através das paredes e ver além do horizonte. Mas esse dia passa. E as promessas se vão.
Amargas como a certeza que eu sempre tive de que meu All Star vermelho não combina com o seu salto alto.

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Autor:

Fábio Ricardo é jornalista blumenauense apaixonado pelo mundo digital, por inovação e por histórias pra contar. Acha que a vida é melhor cercada de gatos, em cima de uma Harley, com uma caneta na mão e uma cerveja em cima da mesa.

7 comentários em “Das cartas que nunca mandei (2)

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