Publicado em Crônicas, Literatura

Das cartas que nunca mandei (3)

Eu poderia facilmente me apaixonar por você, mesmo que eu odeie sequer pensar em iniciar um texto dessa forma. Tá certo, eu sei que você nem me conhece, sem contar que eu estou longe de ser o teu tipo de cara. Mesmo assim, eu quis me apaixonar por você. E conseguiria facilmente se insistisse na idéia.

Hoje, porém, acordei pra vida e vi que não posso ficar insistindo nessa idéia maluca. Você, no alto de sua ingenuidade, de sua cara de menina e seu futuro pela frente, nunca daria bola para mim, já acabado e falido, daqueles que perderam a ternura dos 20 e poucos anos, e sequer alcançaram a temida amadurescência dos 30 e tantos.

Você e sua franja, seus brinquedos, seus lenços e suas cores, não combina nem um pouco com minhas roupas sempre iguais, minha barba por fazer, meu cabelo despenteado e meu jeito assim-meio-sem-jeito de te convidar para sair. Te chamei para um passeio, para um café, para um banho de piscina ou para uma balada, tanto faz, pois já sabia a resposta antes mesmo de iniciar a pergunta.

Pois saiba que tudo isso já é planejado. Já é pressuposto que você não me ame.

Se me interessei por ti não foi por amor, não foi por você ser a garota dos meus sonhos, sinto em lhe informar. É só uma questão simples de substituição. Precisava trocar um amor inexistente por outro. Tão inexistente quanto. Eu só precisava te ver, pensar em ti, sair contigo.

Precisava parar de segurar meu telefone como se ele fosse vibrar a qualquer instante. Precisava parar de discar sempre o mesmo número quando eu precisava de ajuda ou então quando eu simplesmente queria contar a novidade mais banal do meu dia. Eu precisava ocupar minha mente. Mais exatamente, eu precisava ocupar minha mente com um novo alguém.

E é aí que você entra.

Você chegou com um brilho diferente dessa monocr(t)om(n)ia que eu sinto em todo lugar que vejo. Você chegou sem jeito, sem jeito algum. Para falar a verdade, você sequer chegou. Você nunca existiu. Mas eu tiro fotos de seu rosto inexistente, eu rio das piadas que você nunca faz e me sinto um idiota por insistir em papos que sei que você não irá continuar. Você não existe.

Você não existe, mesmo eu sabendo que você é de carne e osso. Acho que é por isso que foi tão difícil te tocar. Mal pude encostar em você. Sei lá, no fundo eu não sabia se iria realmente tocar em algo ou se eu tinha viajado o mundo a procura de alguém que só existe nos meus sonhos. Acho cada vez mais que a segunda vez é a mais real.

E eu explodi no toque de um cigarro. Assim como um balão dourado, que não sobrevive ao menor sinal de calor junto ao peito. E eu ri de minhas próprias piadas, embora sozinho. E eu puxei papos que nunca foram iniciados. E eu fui deixado em pé, na chuva, depois de viajar o mundo em busca de um grande amor.

Ou pelo menos de um pingo de atenção.

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Autor:

Fábio Ricardo é jornalista blumenauense apaixonado pelo mundo digital, por inovação e por histórias pra contar. Acha que a vida é melhor cercada de gatos, em cima de uma Harley, com uma caneta na mão e uma cerveja em cima da mesa.

6 comentários em “Das cartas que nunca mandei (3)

  1. O tag emo foi interessante. Meio um deboche – como se você tivesse um quê de vergonha de vezenquando sentir coisas assim, declarar coisas assim, imaginar coisas assim. Assim inseguras. Se fosse uma carta real eu aconselharia uma investida direta, as cartas são tão subjetivas e esse jeito simples que você se pintou é interessante, sem motivos para baixa estima, então. Mas não acredito no “pé da letra”, até porque escrevo muitas cartas que nunca são 100% confiáveis. Enfim, comentário superextenso… É que eu realmente curto muito as cartas e os sentimentos declarados. E esse foi um ótimo texto com um ótimo tema.

  2. “Você, no alto de sua ingenuidade, de sua cara de menina e seu futuro pela frente, nunca daria bola para mim, já acabado e falido, daqueles que perderam a ternura dos 20 e poucos anos, e sequer alcançaram a temida amadurescência dos 30 e tantos.”

    Essa parte combinou perfeitamente comigo, caramba, me senti aassim demais quando namorava. agora, sou de boa comigo.

    Porque voce não procura esse amor todo em você mesmo? Se olha no espelho. O que você vê? O que você sente?

    Eu faço isso. às vezes funciona, as vezes não.

    O tag emo foi o melhor – BRINKS

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