Publicado em Crônicas, Literatura

Das cartas que nunca mandei (4)

Como é difícil imaginar uma coisa dessas. A gente, que nunca mais tinha se visto, de repente se encontra numa noite desesperada. E a gente nem se gostava tanto assim, né? Você estava longe de fazer o meu tipo de mulher, eu estava longe de ser o tipo de cara que você imaginaria que poderia te fazer feliz.

E mesmo assim, a gente acabou se enroscando numa noite errada. Não foi amor de verdade, não foi paixão tórrida, não foi sequer bom. Apenas foi. Nada mais que isso. E ainda assim, por um joguete malcriado do destino, nossas vidas começaram a mudar naquele mesmo instante.

Dois dias depois você nem lembrava mais que eu tinha passado na sua casa. Eu já tinha esquecido até teu rosto novamente. Mas algo que mudaria nossas vidas estava começando a surgir, a se formar aos poucos, bem devagar.

Foi dentro de seu ventre que uma vida se fez, aquela mesma vida que chegaria para bagunçar as nossas. Um filho. Um pequeno garoto, minúsculo, frágil. Você não queria ele, eu também não. Ao menos não agora. Não era hora, e você bem sabia disso.

Você tentou tirá-lo à força, mas não teve coragem. Pensou em abandoná-lo, mas também não teve forças. Então você tentou me contar, dezenas de vezes, e também lhe faltou a energia necessária. Mas agora nós estamos aqui, ligados, conectados. Nós nos tornamos um só, mesmo a quilômetros de distância. Nós temos um pedaço de nós aí, ao seu lado.

Um pequeno ser que hoje sorri enquanto dorme, sem entender sequer o que é este mundo selvagem que o espera. Este menino forte, bonito e saudável, que tem uma vida de sucesso pela frente. Esse garoto, nosso garoto. Meu garoto. Aquilo que sempre sonhei, e que hoje eu não sei sequer como fazer para segurá-lo no colo.

Ele está aqui, pronto para viver num mundo onde ele nunca estará pronto. Está largado num mundo mudado, numa enorme brincadeira de mal gosto. Onde os sorrisos amarelos estão por todos os lados, escondendo as desgraças da vida, que ele logo vai conhecer.

Uma criança com o poder de mudar o mundo.

O nosso mundo.


* as outras cartas que nunca mandei:
1 – https://fabioricardo.wordpress.com/2008/12/21/das-cartas-que-nunca-mandei/
2 – https://fabioricardo.wordpress.com/2009/01/13/das-cartas-que-nunca-mandei-2/
3 – https://fabioricardo.wordpress.com/2009/02/09/das-cartas-que-nunca-mandei-3/
4 – https://fabioricardo.wordpress.com/2009/02/09/das-cartas-que-nunca-mandei-4/

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Autor:

Fábio Ricardo é jornalista blumenauense apaixonado pelo mundo digital, por inovação e por histórias pra contar. Acha que a vida é melhor cercada de gatos, em cima de uma Harley, com uma caneta na mão e uma cerveja em cima da mesa.

9 comentários em “Das cartas que nunca mandei (4)

  1. Uma vez “fiquei” com um amenina linda num bar em Porto Alegre. Ao nos despedirmos, ela disse: – Vamos nos encontrar nas ruas um dia desses; se eu te cumprimentar, é que terá restado algo dessa noite.

    Antes mesmo do nosso reencontro, escrevi duas páginas de versos dedicados a bares. Por isso, quase não liguei quando passamos um pelo outro anos depois sem esboçar qualquer gesto de reação.

  2. Gostei também.
    Colocar um filho no mundo, hoje em dia, é uma loucura mas também uma aventura. Tem que ter cabeça, e bolso.
    Mas todos os que nascem tem o poder de mudar o mundo, e que comecem pelas pessoas, principalmente os próprios pais.
    Beijo.

  3. Não acredito muito na idéia de que os filhos reconstroem o relacionamento fracassado (não importando o motivo que o tenha levado ao fracasso). Acredito mais no contrário: paixão não resiste a crianças. Deus que me livre e guarde de arranjar um antes de ter viajado o mundo e me perdido de amores umas mil vezes.

  4. Hahaha.. Muito bom…
    Quando eu era pequena
    um dos meus maiores desejos era que fosse encaminhada pros psicólogos no colégio
    Mas eu não era uma criança problema e esse dia nunca chegou… sou frustrada por isso até hj ahsdhaushduashidhiashduiahsudia

    Valeu pelo comentário no meu blog …
    : )

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