Publicado em Contos, Literatura

Variações de um mesmo tema

Fábio Ricardo – 10/03/09

Mal sentaram, e a dona do café já perguntou, de longe: “o de sempre?”. Era, para os dois, o de sempre. Ela, com um espresso longo puro e simples. Ele, com um afetadíssimo Vanilla Coffee gelado.

Discutiam seus relacionamentos. Recentes, porém significativos e impactantes. Os dois estavam sem chão. Ela, com um relacionamento forte, cheio de diretas e indiretas, como ela o era. Um café forte que deixa o gosto marcado na garganta e dá forças para enfrentar o dia. Como um café espresso longo, puro e simples. Ele, com um relacionamento cheio de sorrisos, piadas, sonhos que saíam pelos poros e um brilho mágico nos olhos, como ele o era. Um elaborado café gelado com baunilha e coberto com chantili, preparado numa taça fina e ornamentada com calda de chocolate.

Eles eram opostos, mesmo sendo iguais. Ela, que sofria por antecipação, se preocupava com cada motivo que fazia seu mundo girar. Ele, com uma afobação igual a de quem está nos últimos dias de vida, corria mais rápido do que o mundo poderia um dia girar. Queria mergulhar no abismo de suas emoções de braços abertos, torcendo para que o chão nunca chegasse.

Os dois carregavam nas suas costas as cruzes de seus pensamentos e emoções. Ela carregava com a firmeza de quem sabe o caminho certo a seguir. Ele a equilibrava sem se perceber que ela era – e muito – pesada, enquanto ziguezagueava cantarolando por caminhos incertos.

Os dois estavam sentados à mesma mesa, mas pareciam distantes do mundo. Seus corpos flutuavam, sem tocar o chão. Seus olhos não se fitavam, pois estavam muito ocupados reparando nas cores bonitas que surgiam cada hora com mais intensidade. Os dois disfarçavam o nervosismo, mas olhavam para seus celulares a cada cinco minutos, esperando que tocassem com os nomes certos escritos no visor.

Ela se fazia de forte, enquanto flutuava e se perdia em emoções. Ele só queria saber de flutuar, voar de cabeça para baixo e não sentir nunca mais o chão sob seus pés. Ela, um espresso longo e puro. Ele, um afetadíssimo Vanilla Coffee. Mas ambos, simplesmente cafés.

(outra versão, a mesma história).

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Autor:

Fábio Ricardo é jornalista blumenauense apaixonado pelo mundo digital, por inovação e por histórias pra contar. Acha que a vida é melhor cercada de gatos, em cima de uma Harley, com uma caneta na mão e uma cerveja em cima da mesa.

7 comentários em “Variações de um mesmo tema

  1. “Ela, que sofria por antecipação, se preocupava com cada motivo que fazia seu mundo girar. Ele, com uma afobação igual a de quem está nos últimos dias de vida, corria mais rápido do que o mundo poderia um dia girar.”

    adorei essa parte :)

  2. Curti sua versão tbm, mas essa frase eu adorei…

    “Queria mergulhar no abismo de suas emoções de braços abertos, torcendo para que o chão nunca chegasse.”

    Não fosse a onipresença deste chão, minha vida seria só emoção. É onde gosto de ficar.

  3. Curti sua versão tbm, mas essa frase eu adorei…

    “Queria mergulhar no abismo de suas emoções de braços abertos, torcendo para que o chão nunca chegasse.”

    Não fosse a onipresença deste chão, minha vida seria só emoção. É onde gosto de ficar.

  4. Nem sabia que tinha criado essa reação de pressa e tempo em você, mas não precisava pedir a minha permissão para criar. Aliás, eu gosto tanto dos seus escritos que tou até curiosa para saber o que você fez sobre esse tema :DDD

    ;*

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