Publicado em Contos, Literatura

Carne Viva

Viveu a vida inteira em 100%. Se existem pessoas que são ou 8 ou 80, ele era apenas 80, o tempo todo. Viveu, amou, sofreu. Aproveitou cada dia, cada semana, como se fossem os últimos. Não se planejava com o futuro, pois estava mais interessado no presente. Até mesmo em seus melhores sonhos, como o de ser pai, nunca conseguiu visualizar seu filho adolescente. Apenas como uma criança. De certa fora, nunca imaginou que viveria muito tempo.

Tinha pouco menos de 30 anos. Há cinco, já havia percebido seu problema, mesmo que os outros não o percebessem, ou fingissem que não. Sua contagem regressiva corria em ritmo alucinado. Ele, o cara cujos amores duravam três semanas, cujos empregos nunca chegavam a um ano, cuja vida fervia com a vontade de logo acabar.

Vivia em carne viva, e sofria muito por isso. Mas tinha a certeza total e absoluta de que cada lágrima valia a pena. Para ele, dois meses de sofrimento eram pouco, comparados à doçura de duas semanas de felicidade.
Um dia, comprou uma moto. Uma V-Blade, estilo custom, que sempre viu nos filmes e sempre sonhou em pilotar. Nem foi tão caro assim. O dinheiro que guardou para sua pós-graduação foi um bom investimento. Passou no banco e zerou a conta. Encheu os bolsos e mandou e-mails durante todo o dia.

Despedia-se. Da ex-namorada, da melhor amiga, do grande amor de sua vida e da dona de seus pensamentos. Dos amigos mais próximos e mais verdadeiros. No Orkut, disse um adeus geral, a todos os que faziam seus Natais melhores.

Subiu na moto e partiu. Abasteceu quando necessário. Rodou e rodou, sem lugar para ir, sem ponto de chegada ou qualquer expectativa. Rodou por muito tempo, 100% por segundo. Rodou até não mais ter dinheiro para abastecer e seguir com a jornada. Antes do último quilômetro rodado, estacionou sob um caminhão.

Demoraram meses até descobrirem o que aconteceu. Demoraram meses para entender.

Não demorou muito para ser mais um saudoso esquecimento.

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Autor:

Fábio Ricardo é jornalista blumenauense apaixonado pelo mundo digital, por inovação e por histórias pra contar. Acha que a vida é melhor cercada de gatos, em cima de uma Harley, com uma caneta na mão e uma cerveja em cima da mesa.

6 comentários em “Carne Viva

  1. Putz, adorei o final e principalmente o “estacionou sob um caminhão”. Me lembrou as teorias loucas que eu ficava viajando depois de ler O Mundo de Sofia com 14 anos, achando que tudo q eu fizesse teria que valer a pena… Só depois fui entender que esse tal “Carpe Diem” era mais coisa da época mesmo e que é quase impossível viver daquele jeito. Ou assim, em carne viva.

    Boa, moço :D
    ;*

  2. É, acredito também na solidão como outro mal do século (L’Avventura da Legião Urbana diz isso), entre tantos que temos.

    Dá para fazer boas interpretações neste texto. Quem sabe a necessidade de solidão, a necessidade de ser só seu, tenha o levando a este destino?

  3. Viver em carne viva. A melhor metáfora. Ser 100% tem dessas coisas. Não saber ir do oito ao oitenta também. Acho até que eu seria capaz de amar esse cara aí. Lá no fundo, tenho certeza.

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