Publicado em Contos, Literatura

Lembranças.

Faz muito tempo que ele não a vê. Muito tempo que eles não caminham de mãos dadas, que ele não a guia pela cintura, não beija sua boca, não deixa seu nariz junto ao dela. Muito tempo que ele não acaricia suas pernas ou sua nuca, muito tempo que não rolam no colchão, muito tempo que não se mordem, não se riem, não se vivem.

Mas ele ainda consegue sentir o seu cheiro. E sabe que suas mãos servem perfeitamente para terem seus dedos entrelaçados. E ele sabe que se um dia eles voltarem a se ver, será especial. Eles vão tomar um café daqueles que tem de tudo para ser estranho, cheio de silêncios e momentos que deixam os dois sem graça. Mas mesmo tendo tudo para ser estranho, não seria. Não com eles.

Eles iriam rir e relembrar. E iam falar sobre suas vidas, sobre o que estão fazendo. Iam falar sobre trabalhos, sobre cursos, sobre as coisas que povoam seus dias. E então ela ia perguntar para ele se ele estava namorando. Ela sempre fazia isso. Mesmo longe, ela morria de ciúmes dele, e ele sabia disso. E ele sabia, que se um dia voltassem a se encontrar, o tema ia voltar rapidamente à pauta. E ele nem iria se importar em dizer que sim, ou em dizer que não. Não ia se preocupar em mentir, pois para ele, ela já era a história mais bonita que ele viveu, lá no passado. Não se importaria mais em responder qualquer mentira para tentar reconquistá-la. E ele não ia tentar reconquistá-la.

Mas mesmo assim, por esse joguetes que o destino vive aprontando com eles, eles não iriam se contentar com um café. Seus encontros nunca eram com cafés. Eles iam querer passear no parque, iam querer ficar dando risada por horas e horas e horas dentro do carro, com seus olhares cúmplices e verdades absolutas.

Mas ele sabe que a conversa seria agradável, cheia de olhares, de risadas e de cumplicidades. Mas principalmente, cheia de lembranças. Falariam sobre o passado como se tudo tivesse acontecido há séculos. E se ele se referisse a ela como um caso de amor do passado, ela a corrigiria, diria que foram muito mais do que apenas um caso, foram namorados, e isso era muito mais do que apenas um caso, uma paixão passageira. Diria com propriedade, e deixaria bem claro suas conclusões, que sempre a acompanharam. Falaria que se um dia você foi apaixonado por alguém, você sempre seguiria sendo apaixonado por este alguém. Ele consegue até imaginar os lábios dela se movendo ao dizer isso. Consegue imaginar ela dizendo que ainda era apaixonada por ele, sempre seria. Consegue imaginar seus lábios e seu corpo. Seu carinho e o bem que ela sempre fez para ele. Consegue imaginar toda a beleza desse encontro, quando ele acontecesse.

Mas ele sabe que esse dia nunca vai chegar.

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Autor:

Fábio Ricardo é jornalista blumenauense apaixonado pelo mundo digital, por inovação e por histórias pra contar. Acha que a vida é melhor cercada de gatos, em cima de uma Harley, com uma caneta na mão e uma cerveja em cima da mesa.

2 comentários em “Lembranças.

  1. Sempre que a paixão acontece, seja lá como e quando, ela jamais é esquecida. Pode-se apaixonar novamente, por várias e várias vezes, mas aquela paixão sempre será uma boa lembrança guardada lá no fundinho… bem escondidinha… pois algo irá fazer com que de tempos em tempo ela reapareça, só como uma lembrança, porém uma boa e terna lembrança!

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