Publicado em Análise em Foco, Artigos externos, Crônicas, Literatura

Poemas não são poesia

Todo homem que se considera dono da razão deveria ter um pé atrás com poetas. Não estou falando de Quintana, nem nada desta estirpe, fique tranquilo. Falo dos ditos poetas que toda cidade tem. Os poetas que escrevem poemas.  Os poetas que enaltecem a beleza das flores e das borboletas. Os poetas que se deixam ruborizar com um palavrão ou que acham que estes não cabem em poesias.

São poetas que não fazem poesias, escrevem poemas. O poema nada mais é do que um jogo de palavras bonitinhas e “rimandinhas“, para agradar ao leitor. Já escrevi um tanto destes, assim como tenho certeza de que meu filho, ao se alfabetizar, também escreverá outros tantos na vã esperança de conquistar o coração de uma menina loira. Desculpem-me as morenas, mas é verdade. O primeiro poema de um garoto é sempre para uma menina loira. Só depois de mais velho e experiente é que nós, garotos bobos, percebemos as qualidades de uma morena. E todas as vantagens de se relacionar com elas. Mas isso é assunto para outro dia.

A tentativa de conquistar essa menininha com um poema será um fracasso, devo avisar desde já. Sinto lhe informar, meu filho que ainda não existe, que elas não gostam dos poetas e românticos. Elas gostam é dos canalhas. Elas até se divertem com os poemas, tecem comentários como “que fofinho” ou “bonitinho”. Mas, na verdade, o que querem entre suas pernas ao cair da noite é a barba mal feita de um canalha. Mas isso também é assunto para uma outra crônica.

Voltemos aos poetas. Ou aos ditos poetas, como preferir. Toda cidade está cheia deles. Reúnem-se em academias, salas de teatros, sociedades ou na sala de estar de um dos integrantes de cada turma. Reúnem-se na sala de estar para declamar poemas. Até posso imaginar a cena: levantam-se, bloquinhos em punho, e lêem seus poemas, falando sobre as borboletas, os passarinhos, os amores. Os outros ditos poetas, em círculo, sentados em seus sofás confortáveis, colocam as xícaras de chá apoiadas delicadamente na mesinha de centro e batem palmas com sorrisos débeis no rosto.

Ditos poetas, digo eu. O que aconteceu com os boêmios, com as cervejas, vinhos e doses servidas no balcão do bar ao homem solitário? O que aconteceu com as barbas mal feitas, os bigodes desafiadores da moda e da elegância, aquele brilho de superioridade no olhar? Não venham me dizer que com aplausos e sorrisos se faz poesia, pois não faz. Isso faz poemas. Poemas que a academia tanto adora, poemas com rimas, sejam ricas ou pobres, poemas com muita métrica e pouco tesão.

Só o tesão transforma um poema numa poesia. O tesão é necessário. A poesia precisa ser orgásmica. Não existe poesia morna. A poesia pode falar de sofrimentos, de dor, de paixão, de pele, de suor, de veneno, de falta, de exagero ou do que bem entender. Mas toda poesia necessita de tesão, necessita de orgasmo. Uma poesia sem um orgasmo é apenas desperdício de palavras num pedaço de papel. Vira poema.

Poemas são palavras. Poesias vão muito além. Poesias são verdadeiramente sentidas. Poesias são sentimentos. Os ditos poetas que me desculpem, mas poesia se faz com o pau pra fora.

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Autor:

Fábio Ricardo é jornalista blumenauense apaixonado pelo mundo digital, por inovação e por histórias pra contar. Acha que a vida é melhor cercada de gatos, em cima de uma Harley, com uma caneta na mão e uma cerveja em cima da mesa.

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