Publicado em Contos, Literatura

Engano

Fábio Ricardo – 04/11/09

Caralho, que barulho foi esse? Merda, merda, deve ser aquele filho da puta de novo. Cadê a espingarda? Ô mãe, tu ouviu? Tu ouviu o barulho? Deve de ser aquele filho da puta de novo. No meu gado ninguém mexe mais. Se eu pego esse safado não sobra nada, ah… mas não sobra mesmo. Mãe, cadê a espingarda? Não, nem vem com papo, dessa vez esse filho da puta não me escapa. Safado, sem vergonha. Não aprendeu da última vez, não é agora que vai aprender. Vou meter é uma bala nesse filho da puta. Sai da frente, mãe. Deve estar aqui em algum lugar.

Ô homem, acorda, homem. Teu filho enlouqueceu. Vai lá falar com ele homem, vai lá. Levanta dessa cama, desgraça. Ele vai pegar a espingarda, não deixa ele fazer isso. E se o bandido estiver armado? Não deixa ele ir lá fora não, que ele vai fazer besteira. E se teu filho toma um tiro, homem? Faz algo! Anda!

Filho, tá aqui a espingarda. Pega as balas ali naquela gaveta. Não diz pra tua mãe. Falei pra ela que tá descarregada. Pega a espingarda que eu vou de facão, eu ouvi o barulho vindo lá do galpão. Faz o seguinte, vai pela frente, com a espingarda. Se ele te ver, ele vai correr lá pros fundos, e daí eu vou esperar ele lá. Tu vai pela frente que eu dou a volta e vou por trás. Assim a gente pega esse desgraçado de uma vez por todas. Se ele vier na tua direção tu atira, que é pra assustar o filho da puta. Eu vou vir por trás, vou cercar ele. Dessa vez ele não escapa.

Ô Caralho, que escuro de merda. Esse barulho tá vindo ali de dentro, dessa vez eu pego o safado. Vem cá, corno, aparece que eu te meto uma bala no meio da fuça. No meu gado ninguém mexe não, não dessa vez. Porra, não dá de ver nada, tá tudo escuro aqui dentro. Mas não posso acender a luz que senão ele vai me ver. Já sei, vou é encurralar esse filho da puta. Se ele correr o pai pega lá atrás, então o melhor é partir pra cima e já sair atirando. Agora tu vai aprender a não mexer no que é do outro, filho da puta.

Nãããão! Que foi isso? Zé, que foi que tu fez? Tu matou o homem, seu maluco! E agora, o que a gente faz? Vai dar polícia, vai dar tudo? Ai meu Deus, o que a gente faz?

Calma, mãe! Peguei o filho da puta. Chama o pai pra ele me ajudar a carregar ele daqui. Pai, peguei ele! Paiê, cadê o senhor? Ô diabos, cadê o velho? Só me faltava ter que arrastar esse desgraçado daqui sozinho. Fica parado aí, filho da puta. Se tu se mexer te mando mais uma bala. Pai? Pai? PAI? Caralho, que merdaquemerdaquemerda. Mãe… ah meu deus, mãe! Acertei o pai. Mãe, liga pro Samu que acertei o pai. Pai, levanta pai. Fala comigo, pai.

Meu deus, filho o que tu fez. Tu matou teu pai, tu matou teu pai. Falei pra não andar armado, tu matou teu pai. Homem, se mexe, homem. Ah meu Deus, meu Deus, misericórdia.

Pai, levanta. Levanta, pai. Se mexe, diz alguma coisa pelo amor de Deus.

Tu matou teu pai. Tu matou teu pai. Jesus, tu matou teu pai.

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Autor:

Fábio Ricardo é jornalista blumenauense apaixonado pelo mundo digital, por inovação e por histórias pra contar. Acha que a vida é melhor cercada de gatos, em cima de uma Harley, com uma caneta na mão e uma cerveja em cima da mesa.

7 comentários em “Engano

  1. conto livremente baseado no agricultor que matou seu pai com um tiro de espingarda ao confundir ele com um suposto ladrão de gado, em Rodeio.

    Transformando ignorância em poesia, é assim que devemos seguir a vida.

    Armados, mantenham distância.

  2. Delicioso. Misturar realidade com fantasia é fueda. Preciso tirar um tempinho pra voltar a fazê-lo…

    faz bem pra mente de quem escreve e de quem lê!

  3. a notícia não li ainda, mas agora nem preciso mais ler. A ficção e o teu comentário relacionando-a ao fato real me satisfizeram o desejo de vagar pelas facetas do humano.

  4. Saber que isso ocorreu de verdade faz o conto ficar bem assustador! É como ver Batman e saber que o ator que faz o Coringa também já morreu (aliás, morreu antes da estréia): é estranho!
    Muito bom.

  5. No geral ficou bem bacana. o fluxo dos parágrafos ficou bem feito. Mas esse 4º parágrafo colocou todo o texto em risco. Acho que devia ser quase todo reescrito. O monólogo até pode rolar, mas como está não funcionou, eu acho. Ficou meio ‘for dummies’. Tipo, então leitor, entendeu? o cara tá fazendo isso, vai fazer aquilo, tá pensando assim. (aquele ‘já sei ficou duro de engolir)Isso devia ser revisto, o restante tá show de bola. E o texto vai ficar o bicho. O título entrega o final, mas não tenho certeza se isso seria um problema. questão de pensar a respeito só.

  6. texto foi muito mais muito inspirado no JOrnal do Meio Dia do Alexandre cara de passarinho nao foi?

    nada contra, mas podia ser mais original do que absorver a inspiração do jornal (un) (san)guento.

  7. Luci:

    Não assisto o programa do Alexandre ao meio dia.

    O único contato que tive com a notícia em questão foi através do Jornal de Santa Catarina e de conversas informais com uma vizinha da família.

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