Publicado em Duelo de Escritores, Literatura

A pequena de Doutor Arnaldo

Arnaldo e Zózimo eram melhores amigos, desde pequenos. Estudaram juntos desde a primeira série do colégio municipal do bairro. Na hora do recreio batiam bafo juntos e todas as tardes se encontravam com o resto da turma no campinho, que hoje já é uma rodovia. Arnaldo, meio gordinho quando era pequeno, sempre ficava no gol. Para ser mais exato, sobrava no gol. E Zózimo era o capitão do time, era quem escolhia os jogadores, era o dono da bola. Não por ter dinheiro ou algum poder de persuasão sobre os colegas, mas por ser o único a saber fazer embaixadinhas e dono de dribles desconcertantes.

Hoje, Arnaldo é Doutor Arnaldo. Formou-se na faculdade federal, constituiu família e uma imagem digna de lorde. É respeitado por todos, tanto profissionalmente quanto no pessoal. Tem uma filha pequena e uma esposa com o rosto do mais belo dos anjos que o paraíso já conseguiu criar. Arnaldo, Doutor Arnaldo, é um homem de posses, mas é simples e feliz. Quando não está no escritório de advocacia, ou está caminhando no parque (sempre de boné branco, regata branca e pernas brancas) ou está no Bar Antonio’s, no Leblon.

Já Zózimo, de doutor não tem nada. Tem no currículo uma faculdade de Engenharia de Telecomunicações abandonada no terceiro semestre e uma de Publicidade trancada a mais tempo do que gostaria de admitir. Nunca se casou, mas chegou a juntar as escovas de dente com duas ou três pequenas. Hoje, vive de pequenos bicos que não costuma explicar detalhadamente e pode ser encontrado diariamente na mesa de sinuca do Antonio’s.

Sua dupla preferida no tapete verde, por sinal, é justamente Arnaldo, o amigo mais fiel desde os primeiros anos de sua errante existência. Os adversários são os mais diversos, e sempre que surge uma nova dupla desafiante, Zózimo fala, sem tirar o copo de cerveja de colarinho largo do bigode: “Conversa com o Arnaldão. E a gente faz as menores”.

Se alguém reclamar do fato de Zózimo sempre contrariar as regras oficiais, cismando por sempre fazer as bolas menores, Arnaldo já sai em defesa do parceiro: “Sabe como é, Zózimo gosta da sinuca como gosta das mulheres: ele só faz as pequenas”. “É, eu faço as pequenas”, sempre respondia, segurando a fumaça do cigarro dentro do pulmão.

A frase, entretanto, não era das mais verdadeiras. A preferência dele era conhecida por todos, e visível toda vez que um mignon passava na calçada. Mas Zózimo tinha, na verdade, uma queda por mulher. Assim mesmo, no geral, e não conseguia jamais dizer não para uma. Pior que isso: não conseguia dizer não para si mesmo toda vez que via uma mulher.

E quis o destino que Letícia, a mulher de Arnaldo, fosse procurar pelo marido no bar justo naquele fim de tarde. Ligou para o escritório do marido e ele já tinha saído, por isso resolveu passar no Antonio’s a caminho da aula de pilates. O advogado, porém, ainda não havia chegado ao bar. Já Zózimo, estava lá, cerveja esquentando no copo baixo e cigarro pendurado no canto da boca, enquanto contava alguma piada preconceituosa ao homem atrás do balcão.

– Oi Zózimo, há quanto tempo!

– Pois digo o mesmo! Que bons ventos o trazem até aqui, Letícia?

– Estou procurando o Arnaldo. Ele apareceu por aqui?

– Ainda não, deve chegar logo. Se quiser esperar por aqui, te faço companhia para uma cerveja. Não acredito que seja o lugar ideal para uma mulher bonita como você esperar sozinha.

– Bobo. Aceitaria a cerveja, mas tenho que ir pra minha aula. Depois eu converso com o Arnaldo. E você, apareça lá em casa para jantar, qualquer hora. Daí negociamos esta cerveja.

– Pode deixar. Combino com o Arnaldo.

– Um beijo então. Nos falamos outra hora.

– Até mais, te cuida.

Sorveu o resto da cerveja quente, pegou a garrafa em cima do balcão e viu apenas umas poucas gotas deslizarem para dentro do copo. Antonio já estava chegando com uma nova garrafa, enquanto puxou papo.

– Essa aí tá caidinha por ti.

– Quê? Tá maluco, português?

– E não é? A mulher tá babando por ti, galã. Vai dizer que desaprendeu a ver quando mulher tá te dando mole? Tá comendo desde quando, Zê?

– Quê comendo o quê, bigode. Não reconheceu a pequena? É mulher do Arnaldo, porra!

– Tu tá comendo a mulher do Arnaldo?

Ao ouvir seu nome, já da calçada em frente ao bar, Arnaldo joga a camisa social suada no banco de trás do carro, enquanto pega uma camiseta de malha no banco do carona e veste o corpo fora de forma.

– Tavam falando de mim, é?

– Er… tava não, Arnaldo. – disfarça Antonio.

– Claro que estavam. Ouvi meu nome lá da rua. Qualé, tavam falando mal de mim?

– Nada não, Arnaldo, a gente tava só reclamando que tu tava demorando. Simbora pra mesa que a sinuca tá nos esperando. – Zózimo tenta consertar.

– Opa, beleza então. Quero aproveitar que hoje acho que estou é com sorte no jogo!

O fato é que depois daquela tarde, Zózimo não conseguia mais tirar a mulher de Arnaldo da cabeça. Podia parecer loucura, a mulher do melhor amigo, mas nos dias seguintes a cabeça já não pensava mais com clareza depois da terceira garrafa, e as pernas de Letícia naquela calça de ginástica apertada insistiam em aparecer em sua mente. A bunda não era das maiores, os seios eram pequenos, mas ela tinha aquele jeito de menina bobinha, cheia de pudor. “Essa menina perde qualquer um”, pensou sozinho, se culpando por imaginar tais coisas.

– E esses olhos brilhantes aí, Zê? Tá pensando em mulher, só pode. – Antonio sempre aparecia para salvar Zózimo de seus pensamentos.

– Deixa disso, bigode. E eu lá sou homem de devanear por mulher? Não convém, não convém.

– Sei, e tava pensando no que então, com essa cara toda engraçadinha?

– Uma pinóia, Antonio! Bebeu, foi?

Mas o fato é que Antonio estava certo. Zózimo andava com a cabeça perdida, e só se livrava dos pensamentos impuros quando o amigo Arnaldo chegava para a partida de sinuca. Naquela noite, já tarde e com o corpo cansado e embriagado, percebeu que Arnaldo esquecera a carteira em cima da mesa. Abriu o objeto abandonado, viu uma quantia considerável de notas, alguns cartões e documentos de doutor, e uma foto dobrada. Abriu a foto para ver Letícia de roupão, cabelos bagunçados, mandando um beijo para a câmera. Quase se perdeu em sua mente novamente, olhando a foto, mas o barulho das cadeiras sendo levantadas pelo dono do bar o fez recobrar a consciência.

Resolveu ir até a casa do amigo para devolver a carteira. Sabia que ele precisaria dela logo pela manhã, e Zózimo não queria estar acordado antes do meio dia. Dirigiu até o bairro rico e estacionou na frente da casa do amigo. Abriu o baixo portão de ferro e entrou no quintal, indo em direção da porta. Quando ia tocar a campainha, viu uma luz se acender no quintal que ficava nos fundos da casa. Imaginou que o amigo lia na rede, como era costume, e achou por bem não tocar a campainha e acabar acordando Letícia, que devia estar dormindo a essa hora.

Deu a volta na casa pelo caminho mal iluminado, e logo chegou ao jardim dos fundos. Lá encontrou, num susto, Letícia vestindo nada mais do que uma camisa larga de Arnaldo e uma minúscula calcinha de algodão. Zózimo ficou paralisado olhando aquela cena. A mulher, de costas, ainda não havia percebido sua presença. Os quadris, livres e vibrantes, recebiam a luz da lua cheia. Zózimo o olhava com vergonha, como um garoto que, de cócoras, quase de gatinhas, colava o olho no buraco da fechadura. Coração em pinotes, não movia um músculo e a própria respiração parecia ter cessado.

Quando Letícia se virou, deu um pulo e segurou o grito. Não esperava encontrar alguém àquela hora, muito menos Zózimo. Tentava esconder o corpo, sem muito sucesso, enquanto tentava falar algo, mas a voz não saía. O visitante inesperado continuava paralisado. Não movia um músculo, não respirava, não falava. A impressão era de que nem o coração estava batendo.

Depois de segundos que duraram um século, Letícia quebrou o silêncio desconfortante. Soltou uma piadinha qualquer para disfarçar o nervosismo e caminhou na direção de Zózimo para pegar a carteira do marido que ele segurava na mão imóvel.

– Ah, que bom que você encontrou a carteira. O Arnaldo tava mesmo…

Zózimo não agüentou. Ignorou as palavras da mulher do amigo e puxou-a para si, com força. Antes que pudesse dizer qualquer coisa, Letícia se viu com os lábios esmagados pelos lábios do forte homem, que cheirava a cerveja e a cigarros. Tentou se soltar, se debateu, mas logo os joelhos já não tinham mais forças para negá-lo. Sua boca desejava o proibido, seus pequenos seios se eriçaram, seu corpo amoleceu e sua língua se perdia em voltas e mais voltas na boca do amante. Ela já não sabia mais o que estava fazendo, apenas se entregava ao corpo masculino, coberto de pelos, enquanto o seu próprio corpo, tão pequeno e tão delicado, era atacado por mãos que pareciam surgir de todos os lugares.

Amaram-se ali mesmo, no chão da varanda. As luzes acesas, a porta aberta esperando que o marido surgisse a qualquer momento. A voz sussurrante de Letícia pedindo “fecha a luz, fecha a luz”, mas Zózimo queria ver seu corpo nu. Esperara tanto tempo por aquele corpo, aqueles seios nascentes e tão absurdamente lindos, crispados de tesão e de volúpia. Amaram-se com desejo, com a voluptuosidade de lábios sôfregos como se nunca o tivessem feito.

Na noite seguinte, Zózimo deixou Arnaldo ganhar na sinuca. Em sua concepção, de certa forma, isso o tornava menos culpado. Não tratou o amigo com distância ou indiferença. Bebeu como nos outros dias, fumou como nos outros dias, apenas não conseguiu se concentrar nas partidas. E no final da noite, apenas engasgou-se ao ouvir da boca do amigo:

– Ah, e obrigado por passar lá em casa ontem de noite. Letícia contou tudo.

Zózimo derramou cerveja no colo. Pigarreou e fingiu calma.

– É mesmo? Contou é?

– Sim, sim. Eu estaria mesmo perdido sem a minha carteira. Espero que não tenha sido um incômodo ter que aparecer lá tão tarde.

– Não, não. Incômodo algum.

Depois daquele dia, Zózimo nunca mais foi à casa do amigo. Não conseguiria mais olhar a mulher nos olhos. Temia que ela não conseguisse disfarçar, temia que Arnaldo desconfiasse de algo. Tirou Letícia da cabeça e prometeu a si mesmo que nunca mais, em toda a sua vida, iria se envolver com a mulher de algum amigo seu.

Mas certo dia, quis o destino que Letícia fosse procurar por seu marido no Antonio`s…

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Conto publicado nesta rodada do Duelo de Escritores, sob o tema Traição.

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Autor:

Fábio Ricardo é jornalista blumenauense apaixonado pelo mundo digital, por inovação e por histórias pra contar. Acha que a vida é melhor cercada de gatos, em cima de uma Harley, com uma caneta na mão e uma cerveja em cima da mesa.

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