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Entrevista com a morte

Recebi o texto abaixo por e-mail, no pior estilo corrente. Mas achei muito bom. Humor simples e bem construído. Vale a pena repassar aqui:

A Morte está na moda. Você pode encontrá-la nas ruas, nas casas, nas cidades, no campo, nos filmes, nos jornais, na TV, no rádio, em qualquer lugar. Poucas celebridades conseguem se manter no auge e não sair de evidência como ela faz. Tem sido assim desde o início dos tempos e o seu charme e poder parecem não diminuir com o passar dos anos. Porém, apesar de seu reconhecido carisma e capacidade de trabalho, hoje a Morte passa por sérios problemas de agenda por conta de um projeto que ela acalenta há anos: o fim do mundo em 2012.

Um representante do comitê do além, que não quis se identificar, visitou nosso planeta recentemente e afirmou: “A Terra ainda não está pronta para o fim do mundo. O projeto da hecatombe apresentada pela Morte não convence e tem que melhorar muito ainda”. A afirmação pegou a Morte de surpresa, algo ao qual ela não está acostumada, já que quem surpreende sempre é ela. Procurada pela Folha de São Paulo aceitou conceder a entrevista que segue abaixo.

FOLHA – Representantes do Criador constataram que as obras para o Fim do Mundo em 2012 estão atrasadas. Você confirma?

MORTE – Não. Não há nada atrasado. Quem acompanha o noticiário viu que já adiantei bastante coisa no Haiti, no Chile e na China. E isto só este ano. Agora mesmo estou testando um vulcão na Islândia que, a hora que engrenar, vai bombar, eu garanto. A temporada de ciclones mal começou, o aquecimento global está à toda, e o El Niño voltará com tudo no ano que vem. Está tudo dentro do cronograma e eu estou absolutamente tranquilo.

FOLHA – Mas parece que existe insatisfações com o projeto apresentado.

MORTE – Isso é besteira também. Entreguei o projeto 2012 no prazo, desde a época dos Maias, e todo mundo sabe disso. O que muita gente não sabe é que um fim do mundo tem que cumprir várias exigências. Deus, por exemplo, rejeitou as duas primeiras maquetes que apresentei por estarem fora das especificações. No primeiro ele achou que sobrava muita África e pouca Ásia. No segundo cometi um erro bobo de propor preservar algumas espécies de macacos, me esquecendo que vocês evoluíram de um e isso poderia recomeçar tudo de novo, tornando inútil todo o trabalho. Mas tudo foi corrigido nos projetos seguintes. No fundo, todo mundo torce para que 2012 seja um sucesso como foi o Grande Dilúvio e eu também quero que seja assim. Estou me esforçando ao máximo para que o próximo armagedom supere tudo o que já foi feito até hoje. Vai ser um sucesso.

FOLHA – Qual a possibilidade do fim do mundo ser adiado?

MORTE – Nenhuma. 2012 é 2012 e pronto, não há chance de 2012 ser em 2014. Seria ridículo mudar isso agora. Parece que até já fizeram um filme a respeito. Não é justo contrariar a expectativa do público, não é verdade? Muita gente acha que a morte não tem hora marcada, mas tenho sim e procuro respeitar ao máximo. Não aceito adiamento. O próprio Criador me garantiu que a data será mantida, eu tenho um documento que Ele assinou. Em linhas tortas, mas assinou.

FOLHA – O Fim do Mundo pode ser transferido para outro planeta? Existe essa possibilidade?

MORTE – Existiria se os outros planetas tivessem algum interesse para o Criador, o que não ocorre. Deus tem um ego maior que o universo. Ou melhor dizendo: o universo é o ego de Deus. O Cara se preocupa apenas em ter platéia, mais nada. Que graça teria em acabar com, sei lá, Netuno? Ou Urano? Ou Mercúrio? Um peteleco e esses planetinhas de merda seriam varridos do Sistema Solar. A Terra é o único planeta habitado e viável para um fim do mundo decente, bíblico, cheio de gente pedindo clemência, abrindo selo, anjo tocando trombeta, e o cacete. Mal comparando, a Terra é uma espécie de SBT e Deus é o seu Silvio Santos. O cara até pode ter outros bilhões de mundos na mão, mas o que ele curte mesmo é brincar de Todo-Poderoso por aqui e dar showzinho pra vocês. Por que você acha que as missas são aos domingos? Até nisso ele se parece com o Silvio.

FOLHA – Mas parece que há também uma insatisfação geral com a licitação das obras.

MORTE – Fofoca! Deixa eu explicar uma coisa para acabar de vez com essa pentelhação: o acordo inicial, o que estava acertado, na BÍBLIA, era que o Fim do Mundo seria representando pelo grupo dos quatro.

FOLHA – Os Quatro Cavaleiros do Apocalipse?

MORTE – Isso mesmo. Se você pegar a Bíblia, e ler, vai encontrar tudo lá. Os quatro cavaleiros do apocalipse éramos Eu, o Anticristo, a Fome, e a Guerra. Cada um responsável por uma área. Deus imaginava um fim do mundo mais caído, mais tradicional, com pestes, guerras, fome, etc., mas a idéia não vingou, não foi pra frente.

FOLHA – Por quê?

MORTE – Porque não é preciso ser muito esperto para perceber que, no final das contas, TUDO estoura na minha mão. Pra quê quatro entidades simbólicas quando só uma basta? E eu não estou aqui pra ficar botando azeitona na empada dos outros. Reclamei com o Criador. Ele mudou as regras da licitação e me deixou sozinho, tirando os imprestáveis da jogada. Fiquei sobrecarregado, isto é visível, e é claro que posso falhar numa coisa ou outra. As pestes, até o momento, estou devendo. Depois da gripe espanhola nunca mais dei uma dentro.

FOLHA – Como o H1N1?

MORTE – Sim, é um bom exemplo. Apostei tudo nesse vírus e já descobriram até vacina. Um fracasso que eu assumo. A mesma coisa com a Guerra: eu não tenho mais como cuidar sozinho de uma grande Guerra Mundial, então investi em várias pequenas como as do Vietnã, da Bósnia, do Golfo. Tem uma boa agora no Afeganistão, no Iraque. Eu hoje prefiro trabalhar assim: matar poucos em muitos anos do que matar muitos em poucos. Porque, sinceramente, guerra, peste, e fome não são suficientes para acabar com vocês. Vocês reclamam das baratas, mas o homem é ainda mais difícil de exterminar. O ser humano é FODA! (risos)

FOLHA – Por isso você quer fazer uma grande catástrofe mundial em 2012.

MORTE – Exato! Não podemos perder essa oportunidade. Sumir com os continentes do mapa é o melhor caminho. Já fiz isso com a Atlântida, faria de novo, foi fácil. Basta me dar a chance. O importante é fazer um fim do mundo grandioso, inesquecível, épico, para provar de uma vez que esse negócio de vida não dá certo. Não funciona aqui, não funcionou em nenhum outro canto do universo. Deus tem que parar de insistir com esse troço. A vida é só uma forma de Deus preencher seu tempo com alguma coisa que parece útil. A humanidade não passa de última tentativa e mais nada. E, se me derem essa chance e não melarem o projeto, daqui a dois anos estaremos todos rindo dessas questões ridículas. Quer dizer: pelo menos EU estarei. (risos gerais)

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Autor:

Fábio Ricardo é jornalista blumenauense apaixonado pelo mundo digital, por inovação e por histórias pra contar. Acha que a vida é melhor cercada de gatos, em cima de uma Harley, com uma caneta na mão e uma cerveja em cima da mesa.

2 comentários em “Entrevista com a morte

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