Publicado em Análise em Foco, Artigos externos

As máscaras de Blumenau

Cultura tradicional germânica, passada há milênios de geração em geração. #NOT.

Blumenau é uma cidade germânica. Ou pelo menos assim se vende.

Acontece que em minha coluna no Panorama Cultural, do portal Análise em Foco, eu fiz uma crítica sobre essa máscara europeia que vendemos aos turistas. Nela falei coisas como:

Todo mês de outubro, Blumenau veste uma máscara de olhos azuis e cabelos louros, tira os CDs da Banda Cavalinho da gaveta e se finge de uma cidade tipicamente germânica para atrair os turistas que buscam pela “Europa brasileira”. Sou a favor desse fingimento todo. É bom para o turismo e é bom para a economia.

Chega o mês de julho, a máscara da vez é um pouco diferente da peruca loura, das lentes de contato azuis e dos canecos de chope. É vez de colocar as boinas na cabeça, soltar o som no acordeom e vestir-se de vermelhoverdebranco enquanto degusta um vinho de gosto duvidoso.

A coluna recebeu diversos elogios, o que sempre me deixa muitíssimo feliz. Bastante gente concordou comigo sobre a desvalorização constante da festa. E  o leitor Freddy Ullrich, um típico alemão-blumenauense, me enviou um e-mail dizendo o seguinte:

Este comentário é baseado no artigo “Festitália: se for pra copiar, copia direito”. Concordo com o autor em muitos aspectos. A festa realmente carece de novidades. Muito fraca e não represta de forma adequada os descendentes de italianos e sua cultura. Tambem gostaria de acrescentar sobre algo que ficou omitido na matéria. Dizia que “Blumenau veste uma máscara de olhos azuis e cabelos louros”. Concordo com a colocação do autor, que colocou em termos gerais. Mas gostaria de lembrar que nem todos vestem mascaras. Existem muitas pessoas que cultivam as tradições o ano inteiro. Por exemplo, meu pai faz rádio a mais de 30 anos, apenas Deutche Musik, é loiro de olhos azuis. Convido o autor a fazer uma matéria com meu pai para tambem mostrar o lado pequeno, mas verdadeiro da cultura alemã aqui.

Como fiquei bastante feliz com o comentário dele, relembrando a importância do que mantém viva a cultura alemã sem precisar de máscaras, mostro abaixo minha resposta:

Caríssimo Freddy,

Já de início, agradeço imensamente seu comentário sobre minha coluna. É bom ver que somos lidos por gente que realmente quer ler sobre “cultura” e não apenas lazer e entretenimento.

Sou um amante da culinária, da música, e de outros aspectos culturais dos povos ao redor do mundo. A italiana e a alemã estão entre minhas favoritas, tanto na gastronomia, quanto na dança. E se generalizei minha crítica, tenho que avisar que sou obrigado a fazer isso mesmo sabendo que a generalização sempre é burra, nunca é completa. Somos indivíduos únicos, e sempre é falho denominar uma cultura inteira apenas por uma visão estereotipada dos povos.

Mas para escrever uma coluna cultural para a internet, um mundo onde ninguém tem tempo para nada, temos que ser mais superficiais do que gostaríamos. Quando digo que Blumenau veste máscaras italianas ou germânicas, estou generalizando. Sei muito bem que temos análises muito mais profundas a se fazer, tanto na cultura italiana, quanto na alemã, aqui em nossa cidade. Isso sem citar a cultura russa, japonesa, polonesa, árabe, portuguesa… enfim, nossa cidade é construída por descendentes dos cantos mais diversos do planeta.

Minha generalização quanto às máscaras culturais é apenas sobre as festas em si. A Festitália e a Oktoberfest, para ser mais exato. O falso enxaimel, o chope que desobedece a Lei Alemã da Pureza, e atém mesmo o sushi usando manga, ou o vinho chileno numa festa italiana… tudo isso são apenas exemplos da miscigenação cultural.

Quero deixar claro que sou a favor dessa miscigenação. Somos frutos de uma mistura de culturas, e temos que ter orgulho disso.

Deixo meus parabéns a toda a família Ullrich por manter a cultura alemã viva não apenas dentro de sua casa, mas também cidade afora, pelas ondas do rádio. Respeitar e preservar as nossas culturas é um forma de homenagear o passado e a todos que fizeram parte dele. Sei que vocês não usam máscaras para se mostrarem alemães, e nem precisam disso. A nossa cidade como um todo, é que muitas vezes veste essas máscaras para se mostrar mais tradicional do que é na realidade.

Isso tem um motivador econômico e é saudável. Mas eu sou a favor da transparência. E tenho muito orgulho de meus descendentes italianos, alemães e portugueses, já que sou uma mistura de famílias européias. Mas também tenho orgulho de todos os russos, árabes, japoneses, índios, africanos e principalmente brasileiros que fizeram nossa cidade ser assim como ela é hoje. Rica, bonita e feliz.

Meu sinceros abraços a você e a toda família Ullrich,

Fábio Ricardo

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Autor:

Fábio Ricardo é jornalista blumenauense apaixonado pelo mundo digital, por inovação e por histórias pra contar. Acha que a vida é melhor cercada de gatos, em cima de uma Harley, com uma caneta na mão e uma cerveja em cima da mesa.

Um comentário em “As máscaras de Blumenau

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