Publicado em Contos, Literatura

Sonhos.

Acordou num espasmo. A dor era impossível de ser ignorada: sentia como se seu cérebro tivesse acabado de explodir dentro de sua cabeça. A visão estava turva e o ouvido captava um zumbido incessante, que se somava à dor de cabeça. Tocou o nariz e viu que sangrava, e todos os músculos de seu corpo, ainda rijos, ardiam em febre. Sabia que algo muito grave acabara de acontecer, mas temia a descoberta.
Virou lentamente o rosto e fitou o outro lado da cama. Alguém dormia. Aproximou o rosto e pode perceber a nudez macia, o cheiro de shampoo e o dourado dos cabelos. Os pelos quase transparentes contornavam os braços e os cílios longos escondiam os olhos que já sabia serem azuis.
– Juliana. – murmurou baixinho.
Juliana fora seu primeiro amor. Ainda na inocência da juventude, perdeu-se em devaneios ao ver, pela primeira vez, a menina loura. Nunca teve coragem de falar com ela. Passou a vida amaldiçoando a própria timidez.
Escorregou o corpo para fora da cama, ainda transtornado, e caminhou silenciosamente pelo corredor. As paredes brancas e os móveis marfim em nada lembravam a sua casa. Tudo estava limpo, bonito, cheiroso. Seus passos o levaram até uma porta branca, entreaberta ao lado do quarto onde estava. Sentiu o cheiro de talco e entrou.
No móbile que pendia sobre o berço pode ler “Sophia”, escrito com letras infantis. “Engraçado”, pensou. Sophia era o nome que, em sua inocente juventude, imaginava chamar sua filha, quando a tivesse. Sua filha com Juliana.
Olhou a menina e viu que tinha seu nariz. Era pequena e frágil, e dormia o sono dos justos. Numa caixa encostada no canto do quarto, diversas coisas estavam amontoadas. Pode reconhecer livros, cadernos e quadros. O quarto da pequena Sophia provavelmente era um escritório, até semana atrás. De dentro de uma das caixas, retirou um diploma emoldurado. Era advogado, formado em uma das melhores faculdades.
Um arrepio percorreu sua espinha. O que estaria acontecendo? Como aqueles fantasmas da infância tinham voltado para lhe assombrar? O curso de Direito, que sempre sonhou em fazer, mas largou pela metade. O primeiro amor. A filha. Tudo parecia uma grande brincadeira de mau gosto.
Temia ser um sonho. Desceu as escadas e chegou à cozinha. Apoiou-se no balcão e viu o pacote de Sucrilhos. Não comia Sucrilhos desde a adolescência. Abriu o pacote e encheu a mão do cereal. Foi quando sentiu uma mão tocar-lhe o ombro.
– Não quer leite com isso, querido?
Era a voz de Juliana. A voz perfeita e aveludada de Juliana. Sua mão provocou calafrios em suas costas, seus olhos clarearam o dia e ele não mais quis acordar. Se fosse um sonho, que durasse para todo o sempre.
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Autor:

Fábio Ricardo é jornalista blumenauense apaixonado pelo mundo digital, por inovação e por histórias pra contar. Acha que a vida é melhor cercada de gatos, em cima de uma Harley, com uma caneta na mão e uma cerveja em cima da mesa.

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