Publicado em Duelo de Escritores, Literatura

Visões da favela (ou a Favela Caracol)

– Ei, neguinha, pega minha carteira ali no criado-mudo.

– Já falei pra não me chamar assim, Laerte.

– Qualé, tá com vergonha da tua cor agora, neguinha?

– Não é isso. Só quem me chama assim é o meu homem, já falei.

– E eu lá tenho consideração por corno?

– Não fala assim que o Lázaro é um homem bom.

– Homem bom, sei. Lazarento, isso sim. Ao invés de estar aqui cuidando da mulher, tá lá entupindo o nariz de pó. Daí não sabe por que perde a mulher pra outro. Chifrudo de merda.

– Lázaro tá trabalhando pra fazer todo mundo melhorar de vida, Laerte. Não é um vagabundo que nem tu, que nem trabalho tem.

– Tá é apagando neguinho por aí. Cheirador de pó do caralho. Sabe como ele conseguiu tudo isso, sabe? Apagando o Auê.

– O Auê se meteu em confusão e tu sabe disso. E o Lázaro não tem nada a ver com isso.

– Ah, não tem. Olha, ele não aparecendo no meu caminho, tô de boa. Que se o puto descobre que tô te comendo, acordo na cova. O Lazarento me mete um furo no meio dos olhos! Tu pensa que ele tá lá fazendo ação humanitária? Ele tá é sumindo com todo mundo que olha o desgraçado nos olhos. Logo, logo, quem acorda na cova é ele.

O som de vidro quebrando interrompe a discussão que já se havia acalorado. O projétil, medindo pouco mais que um punho fechado, cuspia uma névoa branca pelo ar. Marluce caiu de joelhos, mãos junto ao rosto tentando interromper o ataque de tosse. Laerte correu em direção à porta dos fundos, passando pela cozinha. Apanhou a faca de cabo preto que deitava sobre a pia e deu um chute na porta, que se abriu com violência. Ouviu o grito “faca” e sentiu o impacto contra o peito.

O corpo, arremessado contra o chão pelas pernas enfraquecidas, bateu com força no piso gelado. A faca deslizou para junto do fogão e os olhos inertes fitaram o teto branco manchado de mofo.

(…)

– Qualé, maluco, tá me tirando? Tá me dizendo que tô de caô, agora?

– Chama o Boss de maluco não, rapá.

– Deixa, Foguinho. Deixa que com dedo-duro eu me entendo.

– Dedo-duro? Tu tá com merda na cabeça, maluco?

O ruivo deu um passo à frente, a semi-automática apontada para o rosto do sujeito negro que estava deitado no colchão. Laerte folheia as páginas de uma revista masculina que estava jogada no chão, calmamente.

– É o seguinte, Paulista… – fala sem tirar os olhos da morena de coxas grossas e sexo depilado – Se o que tu tá me falando é verdade, por que diabos tu não veio me contar isso até hoje?

– Só fiquei sabendo hoje, véi. Já tinha suspeitado, mas não quis falar besteira antes de ter certeza, porra.

– E quem te contou isso, Paulista? O pé de porco que te encontrou na hora do almoço lá na praça da Figueira?

O sujeito negro arregalou os olhos, mas logo virou o rosto. O suor brotava da testa avantajada e se acumulava abaixo do nariz redondo. Antes que pudesse dizer qualquer coisa, o ruivo corpulento encostou a arma na testa do delator. O suor molhava o cano frio, enquanto o corpo do sujeito tremia, incontrolável.

– É o seguinte, Paulista. Eu vou lá pra minha casa como tu falou. Se Marluce estiver sozinha, tu morre. Se Marluce não estiver em casa, tu morre. Se tu tentar deixar o morro, tu morre.

– M-mas…

– Agora, – falou interrompendo o interlocutor – se o Laerte estiver lá com a minha mulher, quem morre é ele. E tu se safa, preto safado.

Os dois negros deixaram o barraco e ganharam as ruas, armas em punho e camisetas regatas jogadas por sobre o ombro. Os calções de futebol guardavam volumes nos bolsos, e se penduravam abaixo da linha da cintura, mostrando alguns pelos pubianos. Lázaro coça o saco, puxa o catarro e acerta o cuspe no poste à sua frente, à meia altura. Olha para o companheiro e abana a cabeça negativamente.

– Isso vai dar merda, Foguinho. Vai dar merda.

(…)

– Vai, vai, vai! Peixoto e Oliveira, cobertura. Amorim, tu e o Carvalho vão pela rua do lado. E cuidado pra não chamar a atenção. Ao meu sinal, eu quero todo mundo dentro daquela porra daquele moquifo. Vamos limpar esse filho da puta pra fora desse planeta.

O grupo de homens encapuzados se aproximava do casebre. Armas em punho, os capuzes e os óculos escuros escondiam a identidade dos justiceiros. A roupa da força especial da polícia carioca não trazia nomes ou símbolos de grupos, apenas o velcro esperando por algo que se prendesse a ele, dando identidade ao seu corpo sem nome.

– O ruivo disse que o Lázaro ia estar aqui exatamente às três.

– Porra, faltam quinze minutos ainda.

– A gente espera?

– Não, que merda, não tem tempo pra isso não. Vamos limpar esse filha da puta e sumir daqui o mais rápido possível. Peixoto, faz sinal pro Amorim se aproximar e ver se tem alguém na casa.

O homem que se escondia apoiado no muro corre alguns metros, cabeça abaixada, até chegar no campo de visão dos outros dois homens que esperavam ansiosos na rua lateral. Fez um movimento com as mãos, sem dizer palavra, e voltou correndo para junto dos outros. Amorim pulou o muro pichado e se aproximou, passos lentos, da janela. Dois vultos se mexiam energicamente no escuro do barraco.

– Qualé, tá com vergonha da tua cor agora, neguinha?

– Não é isso. Só quem me chama assim é o meu homem, já falei.

– E eu lá tenho consideração por corno?

Amorim corre de volta para o muro e faz sinal afirmativo para Carvalho, que repete o sinal para Peixoto. O grupo se prepara para agir. Capitão Jesus, como era conhecido o chefe do grupo, tirou a faca e marcou um X junto à parede do casebre, demarcando tradicionalmente a passagem do temido Esquadrão da Morte pelo local.

Bombas de gás lacrimogêneo romperam os vidros do quarto onde o casal discutia. Enquanto a mulher tombava no chão, sufocada pelo gás, o alvo do ataque fugia pela porta dos fundos.

– Faca! – gritou Amorim.

Carvalho não pensou duas vezes antes de puxar o gatilho. A bala atravessou o peito do bandido, que caiu no chão, imóvel. Carvalho se aproximou e disparou mais uma vez a arma, desta vez contra o crânio da vítima. Capitão Jesus chegou, acompanhado pelo cabo Oliveira, apenas para ver que o rosto não era o de Lázaro, líder do tráfico da favela Caracol.

– Fodeu, vamos sair daqui.

Na manhã seguinte, nenhuma palavra foi pronunciada pelos jornais a respeito da morte de Laerte Augusto de Farias, 28 anos. Luiz Gabriel Castelo Junior, o popular Paulista, amanheceu morto na mesma vala que Laerte. Apenas por via das dúvidas.

(o texto em questão foi escrito para o site Duelo de Escritores)

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Autor:

Fábio Ricardo é jornalista blumenauense apaixonado pelo mundo digital, por inovação e por histórias pra contar. Acha que a vida é melhor cercada de gatos, em cima de uma Harley, com uma caneta na mão e uma cerveja em cima da mesa.

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