Publicado em Contos, Duelo de Escritores, Literatura

Os túneis secretos de Adolf Hitler

A águia de bronze tombada de lado em cima da mesa abarrotada de papeis demonstrava a gravidade da situação.

– Herr Führer und Reichskanzler, estamos cercados. A praça está tomada pela polícia e eles investirão contra as portas do teatro a qualquer momento.

O comandante falava sem fitar o homem que, em pé e sem dizer palavra, olhava janela afora. Só então, reparou na presença de outros oficiais, todos com a braçadeira vermelha amarrada junto ao braço e o quepe verde escuro sendo segurado abaixo da axila.

– Sente-se, comandante Endes. Está tudo sob controle. Seus homens estão preparados?

– Preparados? Mas são muitos, não temos como…

– Schweigen! – a voz do Führer irrompeu sala adentro.

O homem baixou os olhos e a cabeça com rapidez, evitando fitar a face do líder. Apertou o quepe com força junto ao corpo, enquanto apertava também os olhos, temendo as palavras que ouviria a seguir. Foi o silêncio, porém, que o respondeu. Nenhuma palavra foi dita pelo general máximo das tropas alemãs. Ao invés disso, um dos homens que até então se encontrava sentado num dos sofás da sala ampla levantou-se e explicou com a voz calma e grave.

– Reúna seus homens e aguarde por ordens. O mais importante é que ninguém tenha acesso ao führer. Esteja preparado para barrar qualquer tentativa de entrada no teatro, o restante está sob nossa responsabilidade. – disse em tom firme.

Assim que Endes deixou o escritório improvisado para receber o führer no Brasil, o homem voltou a falar, direcionando suas palavras a todos que estavam no aposento:

– Não devemos nos preocupar demasiadamente. O mais importante é a segurança do führer. Temos um automóvel esperando por ele anonimamente na Boulevard Wendeburg. Assim que estiver a salvo, todos voltaremos para cá, sem que ninguém saiba sequer que ele esteve em Blumenau.

– E como faremos isso? – o homem que perguntava tinha o sotaque alemão carregado e o peito ocupado por medalhas douradas em grande quantidade, ilustrando seu alto posto no exército nazista.

– Tudo já foi preparado para uma saída rápida e sem maiores interferências, herr Volles. Sairemos pelo Petterskanal e, enquanto um grupo armado defende a saída Norte junto ao rio, o restante de nós segue ao Sul, a caminho da residência de Rabe e Karman.

– E não encontraremos problemas no caminho?

– Fique tranquilo, general. Os túneis são seguros e foram construídos ainda muito antes da construção do teatro. Tudo para garantir a segurança e locomoção de nosso guia. Daqui, temos opções de acesso a educandários ecumênicos com apenas alguns poucos minutos de caminhada. Não há como sermos descobertos. Após a vitória retornaremos todos para cá, de onde o próprio führer poderá mobilizar nossos escritórios em toda a América Latina. Tivemos nossos melhores homens envolvidos diretamente neste projeto.

– Não seria mais prudente uma região mais afastada do acesso náutico?

– Este trecho do Itajaí Açu não é navegável por nada que possa nos preocupar. Serve apenas como escapatória através de barcos rápidos que possam nos levar até uma área navegável. Não seremos atacados por ele. No mais, além do escritório na beira do rio, já preparamos as terras para a construção da residência oficial em Hammônia, subindo o rio em direção de áreas mais seguras. Herr Eckner está encarregado de preparar os detalhes, mas não pode estar presente hoje.

– Eckner? Conde Zeppelin? Não confio nele.

– Preocupemo-nos com isto em outro momento, senhores. Precisamos deixar o prédio.

Como explicado pelo Coronel Antônio Lara, único brasileiro junto ao grupo e responsável pelas obras na Sociedade Teatral Frohsinn, os túneis eram amplos e estavam desertos. Em frente a cada uma das grandes portas que davam acesso aos subterrâneos, homens armados tinham ordens de defendê-los com a vida. Aparentemente, não havia com o que o líder se preocupar.

Durante todo o trajeto, o Führer não disse uma só palavra. Grunhia, apenas, enquanto observava as espessas e úmidas paredes de pedra que percorriam todo o trajeto. Costumava olhar para o chão, onde os coturnos negros dividiam lugar com algumas raras baratas e um fino fio de água que corria sentido norte, sumindo na escuridão.

Fizeram algumas curvas no túnel escuro, iluminados apenas pelas luzes das lamparinas que alguns dos oficiais carregavam. Após alguns minutos de caminhada, um grupo se separou, subindo as escadas de um colégio de padres para verificar a situação das ruas da cidade. O restante seguiu por entre os túneis largos e silenciosos. Não se ouvia o que acontecia na superfície. Apenas a respiração pesada dos oficiais do terceiro Reich eram audíveis.

Após cerca de 20 minutos de caminhada, que pareciam horas naquela situação, era possível ver a luz na distância. Um rapaz magro de pistola em punho aguardava o grupo que se aproximava. Falou algo num alemão precário e cheio de erros e virou-se para abrir a porta que estava sob sua proteção

O veículo tinha espaço para apenas quatro oficiais. O restante caminhou de volta ao teatro para finalmente mostrar que não havia ninguém a ser procurado em suas dependências. Os papeis e objetos com referências ao nazismo desapareceram em instantes e foram queimados nos dias seguintes.

As buscas foram intensas, mas nada foi encontrado. A vinda do führer do terceiro Reich ao Brasil ficou escondida em meio a boatos e histórias fantasiosas. Lendas urbanas que falavam sobre construções nazistas, tesouros alemães, túneis subterrâneos e suásticas escondidas.

Com a derrubada do império nazista, todos os oficiais atuantes no período da Segunda Guerra foram depostos e presos. A língua alemã foi proibida de ser falada nas ruas. Objetos nazistas foram queimados, louças quebradas e armas confiscadas. Os túneis foram selados com cimento.

Até hoje, a águia de bronze deita as asas no chão lamacento de algum lugar onde o sol nunca mais irá brilhar.

 

 

(este conto foi escrito originalmente para participação no Duelo de Escritores, onde foi o vencedor da rodada. O desafio era escrever sobre a minha própria cidade. Resolvi falar sobre ela através de uma das principais lendas ainda ativas por aqui: os túneis que cruzam o subterrâneo da cidade).

 

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Autor:

Fábio Ricardo é jornalista blumenauense apaixonado pelo mundo digital, por inovação e por histórias pra contar. Acha que a vida é melhor cercada de gatos, em cima de uma Harley, com uma caneta na mão e uma cerveja em cima da mesa.

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