Publicado em Duelo de Escritores, Literatura

O dia que a montanha calou.

Os raios de luz machucaram seus olhos. Não era possível que estivesse acordando. Não era para ele estar acordado. Seu sono pesado deveria se esticar por pelo menos mais algumas semanas. Meses, até, a notar pela baixa temperatura no interior da caverna. Não era possível que tivesse acordado tão cedo. Algo estava errado.

Forçou a vista tentando fazer os olhos, desacostumados depois de tanto tempo sem enxergar, voltarem a focar com nitidez. Não conseguiu ver nada de diferente, mas percebeu que seus olhos lhe pregavam uma peça. Sentia um cheiro diferente no ar. Um cheiro que não pertencia à caverna, um cheiro que não fazia parte de leu lar. Um cheiro de carne humana.

Levantou-se num pulo e urrou. As paredes da caverna tremeram, mas ele não conseguia enxergar nada de diferente. Todos os seus pertences, todo o seu tesouro, continuavam ali, reunidos num canto escuro. Respirou fundo. Nunca tivera tanta certeza: alguém estava escondido dentro de sua caverna.

Fechou os olhos e tentou se concentrar nos sons. Nada. O cheiro era cada vez mais claro, porém. Abriu os olhos e caminhou vagarosamente, olhando em volta. Pensou ter visto algo se movimentando próximo ao fundo da caverna. Avançou lentamente, prestando atenção ao sons que o circundavam. O vento uivando alto lá fora, um canto de condor à distância, um tilintar de moedas dentro de uma sacola de pano. Virou-se com ferocidade na direção de onde ouviu o tilintar das moedas e avançou, insano, contra a parede.

A boca aberta salivava, o corpo vibrava com a expectativa, e os músculos o impulsionavam com toda a sua força na direção do nada. Era lá, podia sentir o cheiro de pessoas naquela direção. Quando ainda faltavam alguns metros para o final da caverna, sentiu um impacto forte contra sua cabeça. O corpo chocou-se, em seguida, contra a parede invisível que estava ali. Caiu de lado, tonto, e grunhiu de raiva.

O impacto, apesar de completamente sustentado pela barreira mágica, acabou com o disfarce do grupo que estava ali. Agora sim, ele podia ver os culpados por fazê-lo acordar prematuramente. Quatro pequenos seres o encaravam espantados. Antes que pudesse se levantar, o quarteto fugiu em disparada caverna afora. O urro foi muito mais forte desta vez. Ergueu o enorme corpo e perseguiu eles com toda a velocidade que conseguia desenvolver encolhido dentro da caverna.

Ao entrar em contato com o mundo exterior, seus olhos o cegaram com a claridade, que não via há meses. Urrou novamente, mas desta vez de dor, e fechou os olhos freando repentinamente. A velocidade impulsionou seu corpo metros à frente, e o chão sumiu abaixo de seus pés. Ainda de olhos fechados, abriu as enormes asas e as movimentou com força, erguendo seu corpo em direção ao céu. Abriu os olhos procurando pelos pequenos seres que tentavam roubar seu tesouro, e viu as próprias escamas vermelhas reluzirem com o sol forte que brilhava no topo da montanha.

Bateu as asas com vigor, sobrevoando em círculos, quando viu os pequenos homens correndo por uma trilha no meio da neve espessa que se acumulava no chão. Deu um rasante em direção ao grupo e pode reconhecer uma mulher e três homens, sendo um deles pequeno e atarracado – provavelmente um anão – e os outros altos e esguios.

O grupo se lançou ao chão no momento do impacto, esquivando-se das presas do enorme dragão vermelho que os atacava. O monstro fez o contorno uma centena de metros à frente e lançou-se novamente contra os fugitivos. Desta vez, no entanto, o grupo revidou. Um elfo, de pele alva como a neve e cabelos levemente azulados, prostrava-se de pé na frente do restante do grupo, com um arco longo empunhado. O dragão se aproximava e o elfo o mantinha na mira. Pouco menos de 200 metros separavam os rivais quando a flecha ganhou os ares.

O impacto o atingiu no rosto, fazendo com que perdesse o controle por um instante. Foi o suficiente para, desengonçado, perder-se em sua rota e atingir o chão coberto de neve há poucos mais de 10 metros de distância do grupo. Quando se levantava, flecha cravada abaixo do olho direito, viu o grupo avançando em sua direção. O corpulento anão tinha um brilho diferente em seus braços, um amarelo cintilava da altura dos ombros até as mãos. Com um movimento de braço na direção do dragão, um grande martelo de luz amarela se formou, sendo lançado contra a criatura que se levantava. A arma de luz explodiu contra seu peito, fazendo com que o monstro se erguesse nas patas traseiras à espera do próximo ataque.

O elfo atirou mais uma flecha, que ricocheteou nas escamas do dragão, sem lhe causar maiores danos. Enquanto a mulher entoava palavras numa língua a muito esquecida, um homem corpulento e alto corria na direção do dragão, bradando uma longa alabarda no ar.

Antes que pudesse ser atingido pelo enorme machado, porém, a criatura vermelha golpeou o corpo do homem com a cauda, lançando-o à distância. O corpo atingiu a neve fofa, mas logo se ergueu novamente. O anão, com os braços cobertos por um brilho ainda mais intenso, golpeou a perna do dragão, tentando derrubá-lo. O monstro era mais forte que imaginava e, com um chute, também o lançou à distância.

Quando se virou para abocanhar o anão caído, um raio atingiu seu corpo coberto por escamas, causando uma descarga elétrica que se espalhou por seus membros. Virou-se a tempo de ver a mulher reiniciar seu mantra, enquanto o elfo percebia que suas flechas eram ineficazes contra o corpo rígido do dragão. Apenas o rosto era livre das grandes escamas que o mantinha seguro.

A enorme besta avançou na direção dos dois – elfo e maga – que discutiam um ataque combinado, quando foi atingida pelo guerreiro, já de pé com sua alabarda. O golpe da grande arma fez um corte em sua perna, mas apenas superficialmente. O dragão virou-se para o homem, mas foi golpeado nas costas por mais um martelo mágico lançado pelo anão.

Quando virou-se para o novo atacante, expôs o pescoço a dupla que discutia metro à frente. Foi o suficiente para que o elfo liberasse o grito de “AGORA” e corresse na direção da fera. Antes que pudesse ver o que acontecia, três pares de tentáculos azulados saíram do chão para agarrar o pescoço do dragão vermelho. Os membros luminosos enrolaram-se no pescoço do animal, que se debatia tentando se livrar. Enquanto isso, os dois guerreiros o golpeavam pelos flancos. Com a cauda, conseguiu atingir o homem mais alto na cabeça, fazendo-o rolar alguns metros morro abaixo, desacordado.

Os tentáculos continuavam esmagando o pescoço do monstro, puxando-o cada vez mais para perto do solo. Quando sua cabeça estava quase tocando o chão, o elfo largou o arco longo no chão coberto de neve e correu na direção do inimigo, desembainhando a espada. Saltou alto e pousou exatamente sobre a cabeça do monstro, que já estava presa contra o chão. À distância, a maga utilizava todas as suas forças para sustentar a magia em funcionamento, mantendo o inimigo paralisado.

O elfo desferiu dois golpes certeiros contra um dos olhos do animal. Ele grunhiu de dor e se debateu no chão, ainda preso, enquanto uma explosão de sangue jorrava do rosto atingido. A mulher já quase não tinha forças, e iria soltar a besta a qualquer momento.

O anão se aproximou e gritou uma série de palavras desconexas, numa língua desconhecida pelo elfo. A luz que envolvia seus braços ganhou cada vez mais intensidade. O anão apontou os braços na direção do elfo e gritou, num misto de fúria, dor e devoção. Caiu de joelhos, já sem força, apagando os brilhos de seus braços.

O brilho, por sua vez, passou a cobrir todo o corpo do elfo. Vendo aquilo, sentiu uma força vinda dos Deuses e ficou de pé sobre a cabeça do monstro imobilizado. Apontou a lâmina da espada para baixo, mirou exatamente no meio do crânio do animal e gritou. Gritou com toda a força de seus pulmões enquanto golpeava para baixo.

Quando o elfo abriu os olhos, viu que a luz havia se dissipado. À sua direita, o anão sorria, agradecido. A mulher tentava se levantar, depois de um esgotamento quase total. O homem que rolara morro abaixo ainda demoraria algum tempo até acordar da pancada na cabeça. Recuperados, havia uma pilha imensurável de moedas douradas os esperando no fundo da caverna.

Após levarem todo o dinheiro que conseguissem carregar, chamariam o povo da vila. Seus ferimentos seriam curados, o dinheiro seria dividido, e seu feito seria cantado pelos bardos, geração após geração. E aquele dia seria lembrado para sempre como o dia que a montanha calou.

 

(texto publicado nesta rodada do Duelo de Escritores. Clique aqui para conhecer os outros concorrentes)

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Autor:

Fábio Ricardo é jornalista blumenauense apaixonado pelo mundo digital, por inovação e por histórias pra contar. Acha que a vida é melhor cercada de gatos, em cima de uma Harley, com uma caneta na mão e uma cerveja em cima da mesa.

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