Publicado em Contos, Duelo de Escritores, Literatura

Rumo incerto

Vesti a jaqueta de couro e calcei as botas empoeiradas. Montei e girei a chave. O dedo pousou, receoso, sobre a ignição. Demorei alguns segundos até, com um suspiro dolorido, pressionar o botão que fez a máquina inteira vibrar embaixo de mim. O ronco assustou os passarinhos, assustou o cachorro, assustou os vizinhos. Assustou a dor e o medo.

Peguei a rua sem rumo, a caminho da rodovia. O cenário à minha volta começou a mudar. Prédios se transformaram em árvores, estacionamentos de shopping centers se transformaram em vastos arrozais e os motoboys foram substituídos por vacas, bois e cavalos. Com o vento batendo forte contra o rosto, respirei.

O câncer chegou de repente, como todo câncer chega. De zero a cem em menos tempo que gostaríamos de acreditar. O ronco da dor era tão alto quanto o do escapamento. Olhei para o ponteiro: estava devagar. Forcei mais o motor e ouvi o urro mecânico. A paisagem começou a passar mais rápido, o vento enrijeceu os braços, da mesma forma como aqueles últimos 18 meses haviam enrijecido minha alma.

Eu não tenho mais idade pra parar de fumar, filho. Isso é coisa pra jovem que ainda tem alguma chance na vida. Agora só me resta esperar e agradecer todo dia a Deus pela vida boa que a gente levou juntos. O sol estava se escondendo atrás das nuvens. Eu sabia que iria encontrar chuva mais à frente. Quando me aproximei o suficiente, encostei e esperei que ela chegasse até a mim.

Engole esse choro, rapaz. Homem de verdade não chora, não. Você não quer ser um homem forte e corajoso assim que nem o papai? A dor logo passa. Esse é o primeiro machucado, mas vão vir muitos. Você deve se lembrar de uma coisa, meu filho: a gente sempre vai cair. O que importa é que a gente sempre se levante e tente de novo. Não adianta quantos machucados a gente fizer, de nada adianta ficar chorando. Mas eu chorava. Sentado na moto, de braços abertos, capacete no colo e rosto recebendo as gostas da chuva que já havia chegado, eu chorava.

A primeira moto do meu pai era uma Intruder. Igualzinha aquelas dos filmes.  E eu falava pra ele, sempre que ele chegava em casa e colocava o capacete na minha cabeça: um dia eu vou ter uma moto também, bem maior que essa, eu vou ter uma Harley Davidson!, eu dizia colocando o capacete.

Coloquei o capacete e olhei o emblema no tanque. PHD. Você nunca andou nela, pai. E nunca vai andar. E ela é tão linda, tão forte. Ela não chora, diferente de mim. Ela é que nem você pai. Ela é forte e vai onde ela bem entender. Ela também tem seus pontos fracos, como você tem os seus. Ela também bebe demais. Ela também tem um problema antigo com a fumaça. Mas ela pode até virar passado, pai, mas você é que é insubstituível.

Retornei para casa. Ela retornou pra casa.

Mas você, pai, você não retornou pra casa.

 

 

 

 

(texto publicado originalmente no Duelo de Escritores)

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Autor:

Fábio Ricardo é jornalista blumenauense apaixonado pelo mundo digital, por inovação e por histórias pra contar. Acha que a vida é melhor cercada de gatos, em cima de uma Harley, com uma caneta na mão e uma cerveja em cima da mesa.

Um comentário em “Rumo incerto

  1. Texto lindo… quero colocar palavras aqui, mas estou sem elas. =)
    Tenho um pai, que tinha uma moto. que fumava e quem um dia foi embora e não voltou … e me deixou uma paixão por motos… Texto lindo.

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