Publicado em Artigos externos, Crônicas

Meu avô me ensinou

paralelepipedo

Quando eu era criança e visitava meu avô, era muito comum que ele me levasse com ele para fazer tudo o que ia fazer. O que não era muita coisa, é justo dizer. Consistia basicamente em assistir documentários sobre a vida animal na TV, consertar uma torneira pingando ou contar e separar meticulosamente todos os pregos e parafusos das milhões de caixinhas cheias de pregos e parafusos que ele mantinha em um rancho nos fundos de sua casa.

Mas tem uma coisa que ele sempre fazia e me levava junto, que era um ritual de paciência e dedicação que sinto muita saudade de acompanhar. Vô Mário pegava uma banquetinha baixa de madeira e uma chapa fina de metal enferrujado dobrada ao meio. Eu nunca entendi para o que servia aquilo até o dia em que ele me levou junto para me sentar no meio fio na beira da estrada de paralelepípedos e me entregou um daqueles artefatos estranhos.

Ele se inclinava sobre os paralelepípedos e começava a raspar pacientemente o mato que crescia entre duas pedras. Eu olhava sem entender. Lembro de levantar a cabeça e ver aquele mar de paralelepípedos e pensar que ele não ia conseguir terminar aquilo tudo nunca. Ao terminar o final da rua, o começo da rua já estaria cheio de mato de novo. Por que ele estava fazendo aquilo?

Mas logo me vi lá, ajoelhado na beira da estrada arrancando o mato que nascia entre os paralelepípedos. E aquela foi uma lição e tanto pra mim. Uma lição de vida. Um aprendizado sobre fazer a minha parte, sobre amar a minha cidade, sobre ter paciência na busca por meus objetivos e sobre não esperar que outra pessoa venha fazer o que eu mesmo posso fazer.

Quando vejo os jovens se reunindo e acolhendo praças, abraçando uma vida mais humana, sendo cem em um dia, pedalando, se doando, se amando… lembro do vô Mário. Vejo cada um destes garotos e garotas como se eles estivessem raspando o mato que cresce entre os paralelepípedos. Não porque é a obrigação deles. Não porque são pagos para isso. Porque eles querem fazer a sua parte, amam a cidade, têm paciência para buscar seus objetivos e não esperam que outra pessoa vá fazer o que eles mesmos podem fazer. Obrigado por isso.

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Autor:

Fábio Ricardo é jornalista blumenauense apaixonado pelo mundo digital, por inovação e por histórias pra contar. Acha que a vida é melhor cercada de gatos, em cima de uma Harley, com uma caneta na mão e uma cerveja em cima da mesa.

2 comentários em “Meu avô me ensinou

  1. Vô Mário, obrigada pela limpeza do paralelepípedo. Vamos, agora, fazer desse caminho não só uma estrada limpa, mas também por onde circulam as ideias. Porque o brilho no olho que faz limpar a praça e a mente é muito mais prazeroso do que a lágrima que engrossa a enchente.

  2. Adorei, meu avô era igualzinho, deu saudades
    Mas por favor, ele não tinha esse artefato, poderia desenhar e me enviar um esboço?
    me seria muito útil
    Obrigado.. Hamilton

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