Publicado em Duelo de Escritores, Literatura

Gerúndio

– Boa tarde, senhor Valdir. Eu poderia estar conversando com o senhor um momentinho?

Assim começava o dia de Valquíria. Com a voz irritantemente estridente atingindo com força os tímpanos do cidadão ao lado do telefone. Ao mesmo tempo em que ele, invariavelmente, contorcia os músculos do rosto em clara indigestão sonora, ela erguia o canto dos lábios num sorriso sacana.

– Eu gostaria de estar oferecendo ao senhor um novo produto de uma nova promoção que gostaríamos que o senhor estivesse vindo a fazer parte.

Valquíria é uma mulher inteligente, sabe há anos que o gerúndio não se faz necessário. Mas sabe, também, que ele é terrivelmente odiado. E é por isso mesmo que insiste em usar cada sílaba de forma tônica, em um destaque mortal. A resposta, normalmente, é a mesma:

– Não, obrigado. Não tenho interesse.

– Mas senhor, o senhor ainda nem descobriu do que se trata este produto que nós gostaríamos que o senhor estivesse adquirindo. E se for – e olha que é! – uma super promoção irresistível, que o senhor com certeza estaria tendo interesse em adquirir? Imagina só a oportunidade que o senhor estaria deixando de aproveitar, não é mesmo?

– Mesmo assim, não tenho interesse. Tenha um bom dia.

– Mas que falta de educação, meu senhor. Já me despachando assim, dessa forma rude? O senhor nem deixou que eu estivesse lhe dizendo o meu nome e já vai me enxotando que nem cachorro magro?

– Tá bom, me desculpe. Como é seu nome?

– Walquíria Elizabeth das Graças de Jesus. Walquíria com dábliu, Elizabeth com zê e tê agá, e Graças de Jesus normal mesmo, né? Porque nas Graças de Jesus a gente não pode mexer não.

Repetia a cada ligação a mesma frase, puxando uma risada anasalada ao final da explicação. Valquíria de Albuquerque Ferreira e Braga não tinha o nome com “dábliu” e muito menos as Graças de Jesus junto a si, cética que é. Mas isso também era uma ótima ferramenta para manipular o pobre senhor Valdir, ou quem quer que fosse, ao outro lado da linha. Valquíria era sádica, explorava o sofrimento do homem que, angustiado, já deveria estar olhando para o relógio, na outra ponta da ligação.

– Desculpe, Dona Walquíria, mas…

– Walquíria Elizabeth, por favor. Com dábliu e zê, tê e agá, lembra?

– Isso, isso. Dona Walquíria Elizabeth, me desculpe mas não tenho interesse em comprar nada não.

– Mas meu senhor! E quem falou em comprar? Não lhe disse agorinha mesmo que nós gostaríamos é que o senhor estivesse vindo a fazer parte de um seletíssimo grupo de clientes que já estão fazendo bom uso de nosso produto?

– Sim, mas…

– Então, meu senhor, tudo o que o senhor precisa fazer, é confirmar alguns dados para nós estarmos fazendo o seu cadastro junto ao nosso sistema, e o senhor já poderá estar desfrutando de nossos benefícios. O nome do senhor é Valdir Souza da Silva?

– Não, não. É Valdir de Souza Silva.

– Ah, sim. O senhor aguarde um minutinho que eu vou estar atualizando o nosso sistema.

No momento em que a música – uma bossa nova irritantemente calma – começava a tocar, Valquíria afastava o fone do rosto, se reclinava na cadeira e acendia um cigarro. A cada ligação, o mesmo processo. Pegava a caneta tinteiro e marcava suas anotações no formulário de pesquisa que tinha sobre a mesa. Nome, idade, escolaridade, número de filhos, profissão, tempo de permanência na ligação telefônica, grau de irritabilidade. Todos os dados de Valdir descritos detalhadamente no formulário que havia projetado para sua tese de doutorado.

– Senhor Valdir, nosso sistema se encontra temporariamente fora do ar. O senhor poderia estar aguardando mais uns minutinhos na linha enquanto estaremos restabelecendo a nossa conexão com o servidor?

– Olha, não tenho interesse não. Já estou atrasado, pois quando você ligou, eu estava de saída.

– Mas senhor, se o senhor vir a estar desligando o telefone, não vai poder estar vindo a fazer parte do nosso seletíssimo grupo de clientes.

– Não tenho interesse, passar bem.

Valquíria colocava, após cada ligação, o telefone de volta no gancho. Desligava o gravador e anotava os dados. Em cima da mesa, pilhas diversas de papéis demonstravam os resultados de sua pesquisa sobre o grau de irritabilidade dos moradores de uma grande cidade ao telefone. Anotava mais um X no formulário enquanto sorria, ao perceber que mesmo após quatro meses de dezenas de ligações diárias, nenhum entrevistado sequer perguntara qual era o produto em questão.


***publicado originalmente no projeto literário Duelo de Escritores. O tema da rodada pede para contarmos as histórias dela, a Valquíria.

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Autor:

Fábio Ricardo é jornalista blumenauense apaixonado pelo mundo digital, por inovação e por histórias pra contar. Acha que a vida é melhor cercada de gatos, em cima de uma Harley, com uma caneta na mão e uma cerveja em cima da mesa.

Um comentário em “Gerúndio

  1. sobre esse texto no duelo, já postei no duelo. aqui, sem amarras, talvez ele seja melhor. eu curtiria mais se ela tivesse outro motivo (ou nenhum). achei um pouco… forçado, nao sei. algo nao desceu direito. pode ser, talvez, o inicio de uma personagem interessante, qua vai se criar de verdade, talvez num outro texto. ou num outro-esse texto.

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