Meu avô me ensinou

paralelepipedo

Quando eu era criança e visitava meu avô, era muito comum que ele me levasse com ele para fazer tudo o que ia fazer. O que não era muita coisa, é justo dizer. Consistia basicamente em assistir documentários sobre a vida animal na TV, consertar uma torneira pingando ou contar e separar meticulosamente todos os pregos e parafusos das milhões de caixinhas cheias de pregos e parafusos que ele mantinha em um rancho nos fundos de sua casa.

Mas tem uma coisa que ele sempre fazia e me levava junto, que era um ritual de paciência e dedicação que sinto muita saudade de acompanhar. Vô Mário pegava uma banquetinha baixa de madeira e uma chapa fina de metal enferrujado dobrada ao meio. Eu nunca entendi para o que servia aquilo até o dia em que ele me levou junto para me sentar no meio fio na beira da estrada de paralelepípedos e me entregou um daqueles artefatos estranhos.

Ele se inclinava sobre os paralelepípedos e começava a raspar pacientemente o mato que crescia entre duas pedras. Eu olhava sem entender. Lembro de levantar a cabeça e ver aquele mar de paralelepípedos e pensar que ele não ia conseguir terminar aquilo tudo nunca. Ao terminar o final da rua, o começo da rua já estaria cheio de mato de novo. Por que ele estava fazendo aquilo?

Mas logo me vi lá, ajoelhado na beira da estrada arrancando o mato que nascia entre os paralelepípedos. E aquela foi uma lição e tanto pra mim. Uma lição de vida. Um aprendizado sobre fazer a minha parte, sobre amar a minha cidade, sobre ter paciência na busca por meus objetivos e sobre não esperar que outra pessoa venha fazer o que eu mesmo posso fazer.

Quando vejo os jovens se reunindo e acolhendo praças, abraçando uma vida mais humana, sendo cem em um dia, pedalando, se doando, se amando… lembro do vô Mário. Vejo cada um destes garotos e garotas como se eles estivessem raspando o mato que cresce entre os paralelepípedos. Não porque é a obrigação deles. Não porque são pagos para isso. Porque eles querem fazer a sua parte, amam a cidade, têm paciência para buscar seus objetivos e não esperam que outra pessoa vá fazer o que eles mesmos podem fazer. Obrigado por isso.

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Das cartas que nunca mandei (6)

Filha, você ainda nem nasceu, mas eu já te amo. Muito.

Por isso quero te avisar que a gente vive num mundo meio confuso. Não se assuste, ele é assim mesmo.

Quando você crescer, vai ter um monte de gente querendo se aproveitar de você. Gente que não vai aceitar você do jeito que você é, gente que não vai aceitar você ser feliz.

Pode ser que você goste de garotas. Pode ser que você se apaixone por um menino negro. Pode ser que você queira ser jogadora de futebol. Pode ser que você vire hippie ou vire PHD. Pode ser que você vire prostituta ou juíza. Pode ser que você se tatue, se masturbe, se vista como você bem entender.
E em todos os casos vai ter alguém para odiar você.

Tudo o que eu te peço, filha, é que não te preocupes.
Para cada pessoa para te julgar, vai ter alguém, em algum lugar desse mundo, pra te aplaudir.

Você não é vulgar só porque a sua saia é mais curta do que alguma pessoa qualquer achou que deveria ser.
Você é a dona do seu corpo e nunca acredite em ninguém que te disser qualquer coisa diferente disso.
Nem a escola, nem a Igreja, nem a vizinha. Nem eu.

Tem um monte de gente por aí que vai fazer tudo o que for possível pra te deixar com medo de amar. Mas o amor vale a pena. Sempre vai valer. Mesmo aquele que dói, mesmo aquele que acaba. O amor sempre vale a pena.

Pode ser que você fique deprimida. Tem gente que vai dizer que simplesmente vai passar. Tem gente que vai te encorajar a se matar (sim, é triste, mas essas pessoas existem). Sempre vai ter alguém que não vai acreditar em você. O mundo é cheio de pessoas assim.

Mas o mundo também tá cheio de gente bacana, filha. Cheio de gente faz valer a pena viver.

Vai ter gente pra te ajudar a se levantar e gente pra rir junto com você quando você cair. Gente pra você se apaixonar e gente para estar lá, só esperando você quebrar a cara para te oferecer o ombro. Vai ter gente de todas as cores. Gente de todos os tamanhos e todos os sabores.

Vai ter gente linda. Por dentro e por fora.
Vai ter gente pra te encher de vontade de colocar mais gente assim no mundo.

E um dia, filha, você vai ter uma filha.
Que não vai ter nem nascido e você já vai amar.
Muito.

* as outras cartas que nunca mandei:
1 – https://fabioricardo.wordpress.com/2008/12/21/das-cartas-que-nunca-mandei/
2 – https://fabioricardo.wordpress.com/2009/01/13/das-cartas-que-nunca-mandei-2/
3 – https://fabioricardo.wordpress.com/2009/02/09/das-cartas-que-nunca-mandei-3/
4 – https://fabioricardo.wordpress.com/2009/02/09/das-cartas-que-nunca-mandei-4/

5 – https://fabioricardo.wordpress.com/2009/05/05/das-cartas-que-nunca-mandei-5/

Meu reino

Resting man

A moto é uma coisa foda. Ela te leva pra qualquer lugar.
Mas a cabeça é uma coisa mais foda ainda.
Se ela não quiser, não há lugar onde você consiga chegar.

Melhor que uma moto potente, só uma cabeça potente.
Assim até uma bis vira um corcel negro, até uma carona vira um trem biker e até uma sombra no gramado embaixo de uma árvore pode virar o meu reino.

 

Parada na esquina

Vi o amor da minha vida
parada na esquina
O cabelo penteado
o vestido preto bem passado
uma ruiva parada ao lado
e eu
apaixonado.

 

Vi o amor da minha vida
parada na esquina
esperando para atravessar
a rua
e eu sonhando em te ver
Nua.

 

Vi o amor da minha vida
parada na esquina
abanei e sorri
empolgado
Ela sorriu também
um tanto amarelado.

 

Vi o amor da minha vida
parada na esquina
e ela nem sabe
o quanto so(f)(r)ri.

Charles

O irmão de Andy veio passar alguns dias em sua casa. Andy adorava o irmão, também tinha muito apreço pela cunhada. Mas havia um problema. O pequeno Charles. O filho do casal era uma pacata criatura: calmo, comportado e inteligente. Até demais. E esse era o problema. Ele tinha um olhar misterioso que perseguia os olhos de Andy pela casa. Ele era um adorável garoto, orgulho de seus pais.  Nenhuma criança em sua idade poderia ser assim: tão perfeito.

Andy passou a andar ressabiado mesmo dentro de casa. Às vezes, enquanto preparava um lanche qualquer na cozinha, virava-se para apanhar algo e dava de cara com o garoto. Ele estava lá, estático, com um sorriso inocente no rosto olhando para Andy como quem está prestes a dizer alguma coisa. Mas ele nunca dizia nada.

O garoto sempre aparecia sem fazer ruído algum, com o sorriso angelical e os olhos brilhantes. Andy estranhava o fato de nunca ver a criança brincando, além do que as histórias de que ele nunca chorava e de que nunca se machucou ou ficou doente deixavam o menino ainda mais estranho. Algo estava errado. Andy não sabia o motivo, mas fazia o possível para evitar sua companhia, fugia de sua presença sempre que possível. Virou um estranho dentro da própria casa. Não conseguia mais relaxar. Até durante a noite, quando fechava os olhos, tinha a impressão de que Charles estava lá, nas sombras, o observando.

Seu irmão iria fazer um passeio romântico com a esposa e deixou Charles sobre os cuidados de Andy, certo dia. Andy levou o garoto para a frente da televisão e voltou ao quarto. Enquanto se afastava, via aqueles olhos fitando seu caminhar, com aquele sorriso adorável acompanhando cada movimento seu. Apressou o passo. Os batimentos estavam acelerados e o suor começava a escorrer pela têmpora esquerda. Parou no alto da escada e olhou para trás: nada. Tentou ler, não conseguiu. Tentou trabalhar, não conseguiu. Fez de tudo para relaxar e não conseguiu.

Teve a ideia: iria às compras. Enquanto estivesse fazendo compras, o pequeno Charles ficaria aos cuidados das recreadoras do supermercado. Se demorasse o suficiente, quando voltasse já encontraria seu irmão em casa. Seu desconforto já beirava a paranóia. Não conseguia mais relaxar, sempre olhando para os lados e temendo encontrar o sobrinho nos corredores. Foi à sala:

– Charles, vá calçar um tênis que nós vamos fazer compras.

Pegou a chave do carro em cima da estante, colocou a carteira e o celular no bolso e arrumou o cabelo em frente ao espelho. Ao se virar, deu de cara com o pequeno Charles, já sorrindo e pronto para sair. Precisou segurar o grito, preso na garganta. Abriu a porta e acelerou o passo. O garoto o seguia, sorrindo. Trancou a casa, entrou no carro, abriu a porta traseira para o menino e partiu.

Charles ficava sentado, coluna ereta, com o olhar perdido para fora da janela. Andy acompanhava cada movimento do garoto, olhando pelo retrovisor. Num cruzamento, quase bateu o carro, distraído. Desviou do outro veículo, assustado com o som da buzina, e seguiu viagem. Só então reparou a alta velocidade em que se encontrava. Olhou para o retrovisor novamente e o garoto não estava lá. Virou-se, assustado, e perdeu o controle do carro. Atingiu o canteiro central e a última coisa que viu, enquanto o veículo capotava, foi o rosto de Charles, na certeza de que gargalhava.

(texto escrito e publicado originalmente para o Duelo de Escritores)

(que como não existe mais, vou trazer alguns textos pra cá)

O vizinho

bad-neighborsoriginal

Meu vizinho me olhou de lado
Meio desconfiado
Eu fiquei bolado
Preocupado
Ressabiado

Será que ele me ouve à noite
Quando estou roncando?
Será que ele me ouve à noite
Quando estou gozando?

Será que ele não gosta
Dos meus gatos?
Será que ele não gosta
Do barulho dos meus sapatos?

Me diga vizinho
Qual é o seu problema
Comigo

Se tudo o que eu queria
Era um vizinho
Amigo

(Ou uma vizinha gostosa
siliconada
Que trocasse de roupa com a janela aberta
De madrugada)

Rumo incerto

Vesti a jaqueta de couro e calcei as botas empoeiradas. Montei e girei a chave. O dedo pousou, receoso, sobre a ignição. Demorei alguns segundos até, com um suspiro dolorido, pressionar o botão que fez a máquina inteira vibrar embaixo de mim. O ronco assustou os passarinhos, assustou o cachorro, assustou os vizinhos. Assustou a dor e o medo.

Peguei a rua sem rumo, a caminho da rodovia. O cenário à minha volta começou a mudar. Prédios se transformaram em árvores, estacionamentos de shopping centers se transformaram em vastos arrozais e os motoboys foram substituídos por vacas, bois e cavalos. Com o vento batendo forte contra o rosto, respirei.

O câncer chegou de repente, como todo câncer chega. De zero a cem em menos tempo que gostaríamos de acreditar. O ronco da dor era tão alto quanto o do escapamento. Olhei para o ponteiro: estava devagar. Forcei mais o motor e ouvi o urro mecânico. A paisagem começou a passar mais rápido, o vento enrijeceu os braços, da mesma forma como aqueles últimos 18 meses haviam enrijecido minha alma.

Eu não tenho mais idade pra parar de fumar, filho. Isso é coisa pra jovem que ainda tem alguma chance na vida. Agora só me resta esperar e agradecer todo dia a Deus pela vida boa que a gente levou juntos. O sol estava se escondendo atrás das nuvens. Eu sabia que iria encontrar chuva mais à frente. Quando me aproximei o suficiente, encostei e esperei que ela chegasse até a mim.

Engole esse choro, rapaz. Homem de verdade não chora, não. Você não quer ser um homem forte e corajoso assim que nem o papai? A dor logo passa. Esse é o primeiro machucado, mas vão vir muitos. Você deve se lembrar de uma coisa, meu filho: a gente sempre vai cair. O que importa é que a gente sempre se levante e tente de novo. Não adianta quantos machucados a gente fizer, de nada adianta ficar chorando. Mas eu chorava. Sentado na moto, de braços abertos, capacete no colo e rosto recebendo as gostas da chuva que já havia chegado, eu chorava.

A primeira moto do meu pai era uma Intruder. Igualzinha aquelas dos filmes.  E eu falava pra ele, sempre que ele chegava em casa e colocava o capacete na minha cabeça: um dia eu vou ter uma moto também, bem maior que essa, eu vou ter uma Harley Davidson!, eu dizia colocando o capacete.

Coloquei o capacete e olhei o emblema no tanque. PHD. Você nunca andou nela, pai. E nunca vai andar. E ela é tão linda, tão forte. Ela não chora, diferente de mim. Ela é que nem você pai. Ela é forte e vai onde ela bem entender. Ela também tem seus pontos fracos, como você tem os seus. Ela também bebe demais. Ela também tem um problema antigo com a fumaça. Mas ela pode até virar passado, pai, mas você é que é insubstituível.

Retornei para casa. Ela retornou pra casa.

Mas você, pai, você não retornou pra casa.

 

 

 

 

(texto publicado originalmente no Duelo de Escritores)